domingo, 27 de setembro de 2015

Vida Roubada - Capítulo 5


            Sem tempo para desperdiçar e sem alertar colegas de trabalho nem amigos, Elizabeth fez o mesmo caminho trilhado por Beatriz meses atrás. Torcia para que ele a levasse para junto da irmã. Com medo de ser reconhecida e tendo apenas a descrição física do homem com quem desejava falar, Liz se preparou para não ser reconhecida. Isso representava usar roupas nada discretas, peruca e muita maquiagem. O estilo era conhecido por ali e não atraía desconfianças. Elizabeth destrancou uma gaveta há muito fechada em seu guarda-roupa e pegou um vestido com imensa fenda, além de uma peruca. Era outra mulher.



            A fenda tinha outra razão além de expor suas pernas. Ela lhe dava acesso à arma, pequena, porém potente, que levava presa na coxa. Se algo saísse do controle, a prostituta saía de cena e deixava a policial fazer seu trabalho.
            A rua na qual caminhava era exatamente como descrito por Beatriz, escura e movimentada, cheirava a dinheiro sujo e violência. Se procurasse um pouco mais atentamente, poderia dar voz de prisão a todos ali. Drogas, armas, agressões, as razões seriam variadas. Ao observar discretamente qualquer um daqueles rostos Elizabeth soube que ali ninguém era santo. Não se surpreenderia caso fosse conferir a fixa policial e acabasse cumprindo vários mandados de prisão.
            Nada daquilo era seu objetivo. E a descrição do homem com quem Beatriz trocou algumas poucas palavras na noite em que Caleb fora preso estava decorada em sua mente. Andou, andou, andou e não encontrou o homem.

            - Quanto é programa? – Um homem parou o carro junto do meio fio e perguntou.
            - Que pena gato, acabaram de me mandar atender um cliente. Fica pra próxima. – Despachou o interessado.

            Havia um homem que combinava com aquele perfil de atitude. Ficava próximo das garotas, observando e de vez em quando uma delas falava com ele antes de sair com um homem. Ele era da quadrilha, mas negro, jovem demais e de baixa estatura, em nada combinava com a descrição física do substituto de Caleb. Mesmo assim, ela foi até ele.

            - É você que comanda aqui?
            - Por hoje, é. E você quem é?
            - Valesca. Marquei com um cliente aqui...posso ficar né. Não vou pegar nenhum das suas garotas.
            - É, pode. Mas só hoje.
            - O ponto parece bom...bem frequentado. – Ela sorriu, falsa, aquele jovem parecia ser o alvo perfeito para colher informações. – Se eu quiser usar essa calçada devo falar com quem?
            - Sei não se vão deixar você entrar...mas vem aí outra noite e fala com o Pedro. Ele vai te dizer.
            - Ta bem. Vou esperar meu cliente então...como é seu nome mesmo?
            - Me chamam de ‘Ligeiro’.
            - Valeu Ligeiro.

            Elizabeth sabia que era observada pelo rapaz. Seu disfarce não era garantido. Então seguiu por ali, caminhando, dispensando clientes, atraindo olhares invejosos de outras garotas. Não podia se queimar já que precisava voltar então deixou claro que não queria competir. Elas entenderam que era verdade quando dispensou um homem num carro esporte.

            - É...tá bem...pode ficar tranquila se não pegar os nossos. – Disse uma loura de seios fartos.
            - Não pegarei. Só espero um que marcou comigo. Cliente antigo, sabe como é.
            - Sei, sei. Mas to de olho.

            Só que não havia cliente algum e ela podia perder seu álibi a qualquer momento. Pensou em discretamente mandar uma mensagem para Matt, pedindo que ele viesse ajudá-la passando-se por um cliente. Não foi necessário. Outro carro esporte parou na sua frente e para esse ela não podia negar nada ou o seu plano seria descoberto.

            - Entra nesse carro agora! – Gritou Miguel olhando-a pelo vidro. Havia labaredas de ódio em seus olhos.



            Elizabeth sentiu as pernas tremerem sobre os altíssimos saltos. Não era medo de Miguel. Mas do estrago que ele podia fazer na investigação caso a entregasse. Se, por acaso, as garotas dissessem para ‘Ligeiro’ que ela não era garota de programa, afinal um marido ciumento tinha vindo buscá-la, teria grandes problemas. Talvez nem ela e Miguel saíssem vivos dali. Ou nunca descobriria nada de Bia. Ela entrou no carro, não havia alternativa. E foi o mais direta possível naquelas circunstâncias. Aquelas prostitutas esperavam vê-la com um cliente e foi isso o que lhes deu. Antes que Miguel tivesse chance de dizer algo mais ela o calou com um beijo, pôs as mãos em seus ombros e manteve seu olhar preso ao dela.
            Miguel foi do inferno ao céu. Desde que se separaram sonhava em tocar aqueles lábios e já imaginava que talvez Liz jamais o perdoa-se. Poderia nunca mais tocá-la. Apesar de ter jurado manter distância do álcool e de prostitutas, naquela noite algo mudou. Foi atraído para ali, disposto a esquecer da esposa por algumas poucas horas nos braços de outra mulher, menos forte, menos bela, menos sua, mas, ainda assim, lhe trouxesse alívio. Veio na busca de uma vadia e encontrou Liz vestida como tal. Imaginou que ela estava voltando aos hábitos passados e procurava por algum alívio, exatamente como ele. Não a julgaria, seria absurdo quando ele veio ali pelo mesmo motivo. Mas o ódio tomou conta de seu corpo na forma de ciúme ao imaginar outro tocando o que lhe pertencia. Quando mandou-a entrar no carro o fez certo que ela revidaria, responderia à altura. Esperou tudo, menos obediência e, sobretudo, não imaginou aquele beijo. Nem o que ela lhe disse a seguir.

            - Ligue esse carro e dirija para longe sem dizer uma palavra. Agora, Miguel. – Foi um sussurro em seu ouvido, mas o tom grave o fez perceber que aquela noite ainda reservava surpresas.

            Miguel dirigiu em alta velocidade. Provavelmente levou algumas multas de trânsito pelo caminho. Ele só desligou o carro quando chegou a um local muito conhecido deles. O motel pessimamente localizado e muito longe das exigências naturais de Miguel serviria muito bem para esclarecer o que ali acontecia. Ele tirou a chave da ignição, e saiu do carro antes que Elizabeth tivesse a chance de reclamar. Ela foi obrigada a segui-lo até um quarto.

            - Eu não achei que te encontraria na rua se oferecendo novamente. Sabe o que isso faz comigo, Liz. – Ele gritou assim que bateu a porta. – Você voltou para a sua vida dupla!
            - Você não sabe de nada, Miguel! Nada! E eu não tenho obrigação nenhuma de te dar explicações!

            Miguel prensou-a contra a parede fazendo-a sentir todo o seu corpo. Ela se debateu, ele não se mexeu nenhum centímetro. Uma aceitação calma e serena nunca lhe pareceu possível, Liz é do tipo de mulher que luta até o último suspiro. Ele beijou-a até sentir o fôlego acabar e perceber que ela já não lutava. Elizabeth parou de mentir e assumiu que gostava daquele toque. Foi a deixa que precisa para permitir que as mãos entrassem por baixo da curta saia e lhe tocassem mais intimamente.

            - Já te falei que se é de sexo sujo que você precisa, eu mesmo posso te dar. Não vai encontrar em nenhuma calçada. – Miguel provocou-a.
            - É claro, porque o limpo você reserva para a Alejandra, apesar, é claro, dela ser tão peçonhenta que não merece nada. – Elizabeth revidou.
            - Deixe Alejandra fora da nossa cama, Liz.
            - Foi você quem a trouxe, Miguel. E nós não temos mais uma cama. É cada um na sua. Agora me solte.



            Miguel nem cogitou obedecer. Até porque, a linguagem corporal de Elizabeth mandava mensagens muito diferentes, mas claras e deliciosas. Em poucos minutos estavam com braços e pernas entrelaçados, deitados no chão mesmo e tirando as roupas o mais rápido que conseguiram. Miguel bem que cogitou aproveitar a oportunidade para rasgar em pequenos pedaços aquela peças de roupas vulgares usadas por Liz. Porém, lembrou-se que ela sairia dali nua caso fizesse isso. Vontade não lhe faltava.
            Conscientemente Elizabeth dizia para si mesma que deveria se afastar de Miguel e ir embora. Razões eram fartas. Ele a traiu, estavam separados, ela desejava esconder dele uma gravidez e precisava manter distância dele. Pena que seu corpo pouco ligava para tudo aquilo e precisava daqueles toques. O resto ela deixaria para resolver na manhã seguinte. Quando sentiu Miguel penetrá-la, não teve sabor de recomeço nem de novidade. Era o mesmo sentimento de estar em casa. Ela reconhecia seu cheiro, sua pele e sua paixão. Minutos depois permitiu-se cair sobre o seu peito e adormecer em sua cama favorita, o peito de Miguel.
            Na manhã seguinte Liza acordou desejando ter sonhado tudo aquilo, assim não teria os problemas que se colocavam agora no seu caminho. Mas nem mesmo precisou abriu os olhos. O cheiro de Miguel lhe confirmou os acontecimentos da noite passada. Teria de contar para ele o que fazia na rua, naquela rua especificamente ou deixá-lo pensando que se prostituí-a por diversão. E por alguma razão nova e desconhecida, colocar mais uma mentira entre ela e Miguel foi descartado completamente. Contaria a verdade. Ao menos essa verdade. Só não o fez assim que abriu os olhos porque a ânsia de vômito foi mais forte que tudo e ela foi obrigada a correr para um banheiro cujo as condições de higiene só fizeram a náusea piorar. Vomitou tudo o que tinha no estômago sobre o olhar atento e preocupado de Miguel. E, ao lavar o rosto, Elizabeth já sabia que teria mais explicações a dar.

            - Eu comi algo estragado. Foi só isso. Não precisa me olhar com essa cara. – Ela disse ainda ajoelhada no chão do banheiro. O ataque seria sua melhor defesa. – Me deixa sozinha, por favor.
            - Não conte com isso. Tem certeza que foi só a comida? Sua cor está péssima. Você não ingeriu nenhuma droga, certo?
            - Não seja imbecil! Sabe que não uso drogas!
            - Naquela área onde você estava elas são muito comuns. Alguém pode ter te oferecido uma bebida batizada.
            - Preciso lembrá-lo que eu não sou idiota? – Ela resolveu encerrar o assunto e recuperar um pouco da dignidade ao se erguer com as próprias forças. Impossível, quando uma tontura a fez perder as forças e ser amparada por Miguel.
            - Liz! Liz! Droga! – Elizabeth pode ouvir vaga e distante a voz do marido enquanto ele a carregava para a cama.

            Quando ela abriu os olhos, Miguel lhe vestia com dificuldade o justo vestido. Estava com pressa para tirá-la dali. Ela desconfiava a razão e sentou-se na cama já lhe dando um aviso. Sentia-se bem melhor. Costumava ser assim quando enjoava. Logo depois já estava bem.

            - Não vou para hospital algum. Tenho que passar em casa e correr para a delegacia. Tenho meus casos...e Bia, preciso encontrar Bia.
            - Ontem a noite você não parecia pensar nisso enquanto se oferecia na rua.
            - Pois fique sabendo que ontem eu pensava apenas nisso! E eu não me oferecia para ninguém!

            Da forma mais resumida que conseguiu, Elizabeth contou a Miguel seu objetivo ao ir até aquela zona de prostituição. Enquanto falava rapidamente ela já vestia as roupas. Ela viu exatamente o que esperava, a raiva e a incredulidade surgirem novamente nos olhos do ex marido. Mesmo assim não recuou. Contou da vistoria que fez nos arquivos da irmã e que, com isso, possuía informações que não existiam nos arquivos da polícia.

            - Eles irão me levar até Beatriz.
            - Isso é perigoso, é uma loucura! O que você pretende?
            - Isso já não é da sua conta. – Ela então pegou a pequena bolsa que carregava e abriu a porta. – Nós não temos mais nenhuma relação, Miguel. Não quero mais te ver. Por favor, respeite isso.
            - Espera! Não saia vestida assim. Eu levo você!
            - Não precisa, vou pegar um táxi.

            Ela saiu. Deixou para trás um Miguel preocupado e bem mais decidido do que na véspera. Preferia ouvir o corpo do que as palavras da esposa. Foi só uma recaída, sabia. Mas não foi a primeira e ele garantiria a existência de outras. Toque por toque, carícia por carícia, faria a esposa entender que o lugar dela era ali, nos seus braços.
            Enquanto isso, no entanto, seria necessário tomar algumas medidas. E a primeira delas era saber de tudo o que acontecia. E nessa hora ninguém melhor para auxiliá-lo do que amigo e advogado disposto a ultrapassar as leis para lhe ser fiel. Ligou para Luis e pediu para verificar como estava o inquérito.

            - Está bem longe das mãos de sua mulher, com a Polícia Civil. Pode ficar tranquilo. Elizabeth não terá como fazer nada. – Advogado lhe respondeu ainda durante aquela tarde.
            - Ao contrário Louis, sem o distintivo ela poderá fazer coisas bem mais perigosas.

           
            A única alternativa que Miguel considerou possíveis eram contar com amigos e colegas de Liz. Eles não a trairiam para ajudá-lo, mas, se os convencesse que Elizabeth corria riscos poderiam colaborar. Mas não Matheus. Ele era amigo de infância dela, fiel demais até para entregar qualquer informação. Patrícia também não falaria com ele. Restava uma última esperança. Tom era possível, mas não garantido. O mais provável é o que o supervisor de Elizabeth a chamasse para uma conversa e proibisse de investigar o caso, mesmo que de forma informal. Isso apenas revoltaria ainda mais a geniosa investigadora federal que ele conhecia tão bem.

            - Rebeca! – Disse por telefone à colega de equipe de Liz, fiel e amiga zelosa, compreenderia sua preocupação. – Preciso muito conversar com você. Venha ao meu escritório, por favor. É importante.
            - Miguel! Bom...porque não. Eu irei sim. Mas já lhe adianto que nada posso fazer sobre Liza e o seu divórcio.
            - Eu sei, Rebeca. E eu mesmo irei resolver isso. Quero apenas conversar com você.


            Quando chegou ao próprio apartamento naquela manhã Elizabeth fez as próprias anotações. O passo dado naquela noite foi curto, mas lhe deu um resultado confiável. Um nome: Pedro. Ele era o homem a comandar ali. Se Pedro tivesse as características descritas por Bia, estaria diante do provável assassino de Caleb. E encontraria um meio de encontrar Beatriz. Infelizmente, encontrar Miguel trouxe problemas. Ela não tinha a ilusão de que ele aceitaria tudo aquilo sem tentar impedi-la de se expor. Teria de se afastar dele antes que atrapalhasse sua investigação e antes de sua gravidez ficar óbvia.
            Sem nem mesmo desconfiar do passo dado por Elizabeth, mas sem jamais perder a esperança, Beatriz seguiu naquela noite para mais um turno de trabalho similar à escravidão ou a tortura. Logo cedo o salão ficou cheio e as ordens de Samantha deram conta que elas deveriam estar mais belas do que nunca. Aquela não era uma noite comum, isso estava claro.
            - Arrumem-se, depressa! – Samantha gritou da porta como jamais fazia.
            - Natacha! Venha aqui. – Bia chamou a garota com quem mais convivia para tentar entender o que acontecia. – Porque estão todos nervosos hoje?
            - Não sei. Deve ter algum evento na cidade, algo que atraiu homens com grana. Pelo barulho, tá cheio o salão. Ela sabe que vão faturar...na real, sei que algumas já estão até ‘reservadas’. Veja a cara de Verônica! Está soltando fogo pelas ventas!
            - Porque ela está assim?



            - Samantha a avisou que vai passar a noite com Sebastian Gonzáles. Ela não curtiu muito a ideia.

            Nos dias ali pouco tinha falado ou até olhado para Verônica. Ela era muito jovem e aparentava um profundo ódio, estava revoltada por aquele triste destino e negava-se a esconder isso sob um sorriso. Talvez no salão ela conseguisse disfarçar, mas, nos bastidores, ela mostrava exatamente o que era: uma escrava sexual.

            - Porque passar a noite com ele é ruim? O que Sebastian Gonzáles tem de ruim ou pior que os demais? É outro velho caquético?
            - Bom...jovem ele não é. Mas não é esse o problema. Sebastian é perigoso, explosivo e exigente. Gregory o utiliza quase como um castigo para as garotas mais indisciplinadas. Devolve-as exaustas e até um pouco machucadas. Já bateu em algumas que não o obedeceram ou satisfizeram. Ninguém gosta de ir atendê-lo. Em compensação, costuma ser muito generoso com as que considera satisfatórias.
            - Você saiu com ele já?
            - Não. E prefiro não arriscar. Vamos ver se Verônica o agrada. Agora, é hora de irmos.

            Talvez fosse curiosidade natural ou seu faro jornalístico se manifestando. Fato é que ficou interessada em descobrir quem era aquele homem. Só em saber, não em sair com ele. De explosivos e violentos já lhe servia Gregory. Circulou pelo salão e avistou muitos engravatados. Sim, Natacha tinha razão. Havia algum evento atraindo para Moscou aquele perfil de cliente. Alguns flertaram, outros tocaram seu corpo. Mas pelas primeiras horas ela mais dançou e serviu bebidas do que trabalhou para o que eles lhe desejavam.

            - Faça-me um favor, queridinha. – Jean lhe disse colocando sobre o balcão uma garrafa de bebida e dois copos. – Leve para aqueles dois cavalheiros ali. É só largar na mesa. Ok?

            Os ‘dois cavalheiros’ eram homens de meia idade, altos e bonitos. Pena que cada um já tinha um copo na mão e provavelmente já estavam muito bêbados. Beatriz fez o pedido de Jean e largou a mesa após um rápido cumprimento em inglês dito em tom baixo. Poucos ali falavam a língua e menos ainda tinham a decência de responder, mas ela costumava sempre dizer algo ao se aproximar da mesa.



            Infelizmente, assim como nos outros dias, nenhum deles sequer ergueu o rosto para olhá-la. Ela então voltou para perto do bar e perguntou para Jean quem eram.

            - Não é da sua conta...o gato perdeu a língua . Agora vá achar um cliente.

            Ela fez justamente isso. Dançou sobre um balcão, atraiu olhares desejosos e viu quando alguns homens a apontaram durante uma conversa com Gregory. Mas nenhum deles veio até ela. Sinal que ele a estava reservando para alguém ou estava subindo o preço. Qualquer uma das hipóteses a fazia se sentir humilhada.
            Surpreendeu-se quando viu Verônica subir para uma das suítes com um dos homens para quem serviu bebida. Ele já estava tomado pelo álcool. Ela precisava ampará-lo. Mesmo assim, era evidentemente um homem belo, forte e poderoso. Talvez até perigoso. Aquele era Sebastian Gonzáles.
            Seus devaneios foram interrompidos quando Gregory o chamou para indicar um cliente. Meia idade também, não estava tão bêbado e, segundo Gregory, era cliente assíduo da boate.

            - Trate bem do homem. E rápido. Daqui duas horas quero você linda no salão e ele satisfeito e apagado lá em cima. Faz ele beber mais.
            - Como farei isso? – Ela não sabia como o incentivaria já que ele tinha bebido pouquíssimo até o momento.
            - Dê seu jeito. Tenho certeza que consegue enlouquecê-lo com esses quadris...os conheço o bastante para dizer isso. Agora vá Beatriz e não esqueça. Tem duas horas para acabar com ele.


Alguém Para Amar - Capítulo 25


            Jéssica deu às costas ao seu antigo lar de mãos dadas com Lorenzo. Os planos deles eram de almoçar ainda em Curitiba e só depois pegar a estrada rumo a São Paulo. Jéssica lhe pediu que fossem logo embora, queria deixar toda aquela tristeza no passado. Algumas lágrimas ficaram presas em seus olhos e ela se manteve calada observando as paisagens passarem pela janela enquanto brincava com o anel em seu dedo. Desejava esquecer seus pais e toda aquela sensação de abandono e pensar apenas em Lorenzo e Clara. E na família que estavam construindo. O relógio marcava 14hs quando Lorenzo parou num restaurante às margens da rodovia. Estava longe de ser o almoço planejado, mas ele estava com fome, não gostava que ela ficasse sem comer tantas horas e não estava mais suportando a expressão triste nos olhos de Jéssica.

            - Desse comigo. Vamos se algo abre seu apetite. – Convidou, acariciando seu rosto delicadamente.
            - Você se importa se eu ficar no carro enquanto você almoça?
            - Me importo. – Ela queria a solidão para chorar e, se fosse para deixar as lágrimas correrem, ele preferia estar junto. – Jéssica, eu não posso forçar seu pai a te aceitar. E nem impedir que você sofra. Mas eu preciso que você supere isso. Não gosto de te ver assim.
            - Não se preocupe, vai passar. É só...tristeza. Eles deviam me amar.
            - Eles amam. Só não sabem demonstrar.
            - É, pode ser. – Mas ela não estava segura disso. – Eu sei que eu errei. Não deveria ter caído na conversa de Bruno. Meu pai...ele foi um bom pai. Eu fui amada. Tinha tudo, qualquer brinquedo que eu quisesse. Ele sempre dizia que seria médica quando crescesse, seria o seu orgulho e eu destruí esse sonho. Ele se decepcionou comigo. Nunca vai me perdoar. Eu sei que não.

            Lorenzo não concordava com nada daquilo, mesmo que entendesse aquele sentimento de culpa e desamor, jamais sentido por ele. Nessas horas valorizada ainda mais seus avós. Francesco e Ângela foram muito importantes na sua criação, de Jonas e Milena. Ensinaram Leonel e Giovanna a lhes dar amor e limites na medida certa. E mesmo erraram e foram repreendidos, jamais duvidaram do amor dos pais.
            Lorenzo deixou Jéssica desabafar. E ela finalmente chorou e descarregou todo aquele sofrimento. Não podia evitar que ela sofresse, mas podia estar ali, disposto a acalentá-la após cada lágrima. E também tinha esperança de poder fazer algo além de observar. Deixou seu contato com Laura na esperança de que eles procurassem a filha. Se não fosse assim, garantiria que ela se sentisse amada daquele dia em diante. Quando seus soluços se acalmaram, ele secou as lágrimas e sorriu.

            - Você não fez nada que mereça perdão Jéssica. Seus erros dificultaram a sua vida, você arcou com todas as dificuldades e criou Clara como muitos casais não conseguem. E eu te amo. Não esquece disso.
            - Também te amo. Eu e Clara te amamos. – Enfim Lorenzo pode vê-la voltar a sorrir. – Estou com tanta saudade dela.
            - Eu também. - Ele a beijou docemente. – Agora vamos comer e voltar para casa. Temos que contar para Clara que muito em breve ela será oficialmente a minha filha.

            Clara recebeu os pais com muita empolgação e correu para contar todas as aventuras que o ‘tio Jonas e titia Emily’ a deixaram ter. Não foram poucas. As mais animadas lembranças estavam ligadas à Vida. A bebê de Emily e Jonas ganhava todo o carinho de Clara. Vida lhe despertava sonhos de que pai e da mamãe também lhe dessem uma irmã, pequenina e cheirosa como ela. Enquanto Clara estava distraída junto de Vida, Jéssica e Lorenzo contaram ao casal de amigos que iriam se casar.

            - Parabéns! Nós já sabíamos que esse namoro iria terminar no altar. Vocês se completam. – Emily os cumprimentou.
            - Verdade! – Jonas preferiu um comentário mais brincalhão. – Eu já estava achando Lorenzo muito lento para colocar as algemas.
            - Olha quem fala. Levou seis anos para reconhecer que Emily o tinha fisgado. Fui muito mais rápido que você! – Lorenzo respondeu.
            - Ou Jéssica foi mais rápida do que eu. – Emily completou.
            - Obrigada. – Jéssica disse abraçando seu noivo. - Estou muito feliz. Ainda nem conseguimos pensar nos detalhes nem na data.
            - Vocês terão tempo pra isso. Agora vão dar a notícia para Clara! Ela está no quarto ansiosa para contar detalhadamente como foi o final de semana. E Jéssica, não se preocupe que eu lhe ajudo a organizar todo o casamento. Agora que casei, já sou experiente no assunto! – Animada, Emily já começava a fazer planos.

            Jéssica e Lorenzo seguiram a sugestão de Emily. E a notícia de que mamãe e papai resolveram se casar fez com que seu maior sonho ganhasse forma. Ao contar que a mamãe aceitou se casar com e perguntar se ela ficava feliz com isso, Lorenzo recebeu a resposta mais surpreendente de todas.




            - Pequenina, você lembra quando eu falei que um dia seria seu papai de verdade?
            - Sim. Era um segredo só nosso.
            - Agora não é mais. Esse dia chegou. A mamãe aceitou casar com o papai. E você será a minha filha. Você deixa a mamãe casar comigo?
            - Se a gente for morar na mesma casa para sempre, você me colocar na cama para dormir e brincar comigo eu deixo sim você casar com a minha mãe. Mas tem que ser meu papai para sempre viu! Eu prometo que vou me comportar bem.

            Lorenzo pegou Clara no colo e encheu seu pescoço de cócegas. Mais do que nunca via o quanto ela era parecida com Jéssica. Inclusive na carência por carinho. Clara também desejava muito ser amada. E igualmente sentia medo de perder o amor de quem estava com ela.

            - Para sempre! Eu sou seu papai. E os papais amam as filhinhas para sempre. Mesmo quando elas não se comportam. – Disse ele. A frase era endereçada à Clara, mas servia muito bem à Jéssica também. – E eles dão presente, sabia? O que você acha que eu e a mamãe te trouxemos do passeio?
            - Uma boneca! – Clara disse já vendo a caixa. – Deixa eu ver, deixa eu ver!

            A caixa em segundos foi aberta e a boneca recebeu o carinho da dona. Ela representava um bebê com cabelos cor de mel, chupeta na boca e roupinha cor de rosa. Com o instinto típico das meninas, Clara começou a niná-la e ao apertar e barriguinha ela fechava os olhinhos.

            - Como que se diz Clara? – Jéssica lembrou à filha.
            - Obrigada papai.
            - Como você vai chamá-la? – Lorenzo perguntou.
            - Não sei...Cecília, eu acho. Cecília é um nome bonito. Não...não vai ser Cecília. Vou chamá-la de Beatriz.
            - Por que não Cecília?
            - Porque não, papai. Cecília não pode! Porque Ceci vai ser o nome da minha irmã!

            Lorenzo e Jéssica trocaram um olhar surpreso. Clara não apenas aceitou bem a ideia do casamento como presumia que eles teriam um bebê, sabia que seria menina e já escolhera o nome. Ambos sorriram. A ideia de Clara não desagradou a nenhum deles.

            - A mamãe não está esperando bebê, Clara. – Jéssica explicou. – Você pode chamar sua boneca de Cecília, se quiser.
            - Não, não mamãe. Será Beatriz. Ceci será o nome da minha irmã mesmo! Ela vai sair da sua barriga!

            Jéssica desistiu de contrariar a filha. Ela e Lorenzo tinham bons motivos para sorrir diante daquela ideia. Ela tinha certeza absoluta que não estava grávida, mas, quem sabe, no futuro isso poderia mudar. Nos dias que se seguiram, ela e Lorenzo resolveram esperar para dar a notícia ao restante da família e, também, inicial qualquer planejamento. Isso porque em um mês Emily e Jonas realizariam o batizado de vida, em Bento Gonçalves e de forma muito simples e familiar. Seria a oportunidade perfeita.
            Além disso, daria a noiva mais algumas semanas para se habituar a ter um marido, rico e muito disposto a mimá-la. Naqueles dias que seguiram a viagem a Curitiba ele a tratou com especial delicadeza. Havia uma flor sobre o travesseiro esperando ela abrir os olhos na manhã em que ele precisou sair muito cedo. Outros muitos botões de rosa chegaram ao restaurante lhe endereçados. E não se tratavam apenas do que ele podia lhe oferecer por ter dinheiro. Era também aquela simples disposição de lhe amar que o fazia acariciá-la todas as noites antes de dormirem abraçados.

            - Eu entendo que você queira esperar o batizado de Vida, mas, depois disso, vamos iniciar o planejamento do nosso casamento. Está bem? Não quero esperar mais. – Lorenzo lembrou-a num dia pela manhã, enquanto tomavam café.
            - Sim, depois do batizado. Até porque, aí Emily terá mais tempo de me ajudar. Agora ela só pensa em Vida e em seu menino. – Jéssica respondeu.

            Emily até pensava em outras coisas como cuidar de sua família e amar Jonas cada dia mais. Porém, dar a Vida um encontro familiar, muito carinho e um doce batizado era questão de honra. E ela passou as semanas seguintes muito envolvida com a preparação do evento. Tanto que ignorou qualquer reclamação de seu corpo por tanto esforço.

            - Sou mãe! E ser mãe é se superar! Não tenho tempo para ficar doente quando tenho dois filhos! – Ela disse a si mesma quando sentiu uma tontura em meio ao trabalho.

            Já com cinco meses completos de gestação Emily desembarcou no aeroporto de Porto Alegre tendo Jonas nervoso ao lado. No voo de 1h20min, ele lhe perguntou nove vezes se ela se sentia bem. A partir da quinta vez a resposta automática ‘sim, é claro’ passou a ser mentirosa. E ela não considerava isso uma mentira. Afinal, qual gestante não se sentia um tanto inchada e incomodada durante o trajeto.
            Ela se sentia bem o bastante para viajar e trabalhar, além de manter todas as suas atividades com Vida e Jonas. Nada na sua vida foi reduzido na sua rotina, além das horas no restaurante. Elas foram substituídas por um período maior com Vida. Mas não de descanso, porque cuidar de um bebê estava longe de ser repousar. E quando Jonas retornou ao assunto babá, apenas com um olhar Emily declinou da ideia. Por isso Jonas cada vez menos ia à construtora. O que devia estar incomodando seus sócios. Algo que não o incomodava.

            - Mais essa viagem ao sul não deixará Juliana e Rafael chateados?
            - Se ficarem, problema deles. Às vezes tenho vontade de me dedicar só à vinícola. Ela cresceu no decorrer dos anos, os lucros também. Poderia manter nossa família tranquilamente sem o dinheiro da JRJ. E sem as dores de cabeça que ela me dá. E teria mais tempo para cuidar de você e dos nossos filhos. – Jonas lhe respondeu.

            Não seria o caso de Rafael, já que ele e Melissa seriam os padrinhos e viajariam amanhã, no sábado. Já Juliana, até por estar excluída, poderia reclamar. E por causa dela Emily era muito simpática a ideia de Jonas abandonar a construtora. Mas jamais lhe pediria algo assim, ou ficaria feliz se isso o deixasse frustrado profissionalmente. Por isso ela evitou dar opinião naquele assunto. Assim como Jonas não interferia no restaurante, ela não tentaria convencê-lo de nada sobre a construtora. Mas vendo chegar na simplicidade da fazenda e caminhar à vontade, sem ternos e gravatas para lhe atrapalhar, via como Jonas era feliz longe da JRJ.



            Depois de serem recepcionados pela família e todos começarem a mimar a bebê Vida e a gestante da casa, Jonas falou que gostaria de caminhar pelos parreirais, mas não queria deixar a esposa sozinha, nem achava que ela tinha condições de fazer esse passeio.

            - Você se importa se eu for...
            - É claro que não! Vá! Eu e seus filhos ficaremos ótimos. – Ela respondeu, sabendo que ele precisava daquele contato com a natureza para se recuperar do período da cidade.

            Ela permaneceu na casa, sendo mimada pela família e falando do bebê. Agora ela e Jonas tinham decidido o nome do menino que nasceria em no máximo 4 meses. Se chamaria Bernardo.

            - Bernardo! Que lindo! – Giovanna derreteu-se. – Veja vovó Ângela. Agora já tem mais dois bisnetinhos. Vida e Bernardo.
            - Sim! Dê-me Vida. Sei que ela quer o colinho da bisa. – A idosa senhora que tanto esperou por bebês naquela casa agora se sentia realizado. Bernardo também será muito bem vindo e amado.
            - Quando Lorenzo chega? – Leonel perguntou à nora. Sabia que ela e a namorada de Lorenzo trabalhavam juntas.
            - Eles pegarão o avião no início da tarde. – Emily respondeu. – Então vovó Ângela terá Clara para mimar também.
            - Sinto falta da menina Clara. – A bisa já sorria esperando a menina. – E vou puxar a orelha de Lorenzo. Já está na hora de casar e me dar outro bisnetinho! Aquele menino pensa que me engana indo pra São Paulo!

            Emily não disse nada, mas já imaginou o sorriso da avó de Jonas ao ficar sabendo que em breve Jéssica seria esposa de Lorenzo. E, todos tinham certeza, chegaria o dia da notícia de um novo integrante da família Vicentin. Cansada e sentindo as costas doerem, Emily aceitou o convite para ir se deitar enquanto os familiares cuidavam de Vida. Ela estaria em ótimas mãos, tinha mamadeiras preparadas e muitos brinquedos para se divertir. Com uma dificuldade que surpreendeu a todos, Emily subiu as escadas ao segundo piso da casa.

            - Jonas já tinha me dito que ela não está tão bem quanto gosta de aparentar. – Giovanna contatou conversando com Milena. – Vamos tentar poupá-la nesse final de semana. E deixá-la repousar bastante.
            - Sim, mamãe. Ela não parece bem. – Milena concordou, só agora entendendo porque Jonas lhe dissera que dificilmente a gravidez da esposa chegaria aos nove meses. – Isso explica o estresse de Jonas. Ele tem medo de que algo ruim aconteça à esposa e o filho.
            - Não acontecerá. Vamos cuidar deles. – Giovanna garantiu. Se precisasse, se mudaria para São Paulo para ajudar.

            No final daquela tarde Lorenzo, Jéssica, Clara, Rafael, Melissa e Tales chegaram à vinícola. E com o grupo completo Leonel e Giovanna tiveram o prazer de servir um jantar em família. Tudo abrilhantado pela grande notícia da noite, seguida por um beijo apaixonado e muitos planos. Italianos adoravam ter a família reunida e o anúncio de um casamento era a garantia de mais uma grande comemoração.

            - Jéssica aceitou ser minha esposa. Por isso, digo a todos vocês que muito em breve pretendemos trocar alianças.
            - Viva! – Gritou vovô Francesco erguendo sua taça. – Um brinde à mais nova integrante dessa família. Seja bem vinda Jéssica.
            - Obrigada pelo carinho de todos. – Jéssica respondeu comovida com aquela acolhida.
            - É minha neta agora. – Disse vovó Ângela. – E já podem me dar bisnetinhos.

            Todos riram da insistência da idosa que, mesmo com três crianças já na próxima geração da família, queria mais. Muitos mais. E Lorenzo e Milena eram suas vítimas nessa tarefa. Agora ela havia encontrado mais uma ajudante. Clara estava bem interessa em que a mãe e o pai lhe dessem uma irmã. Ela mostrou sua boneca e explicou se chamar Bia, já que o nome que iria escolher seria usado em sua irmã. Alguns encararam como brincadeira de criança. Outras acharam que o pedido de casamento poderia ter outra razão.

            - Minha irmã vai chamar Ceci. – Avisou. – Ela vai sair da barriga da minha mamãe.
            - Irmã....mas....vocês...- Melissa puxou a fila dos curiosos.
            - Não! – Jéssica respondeu e olhou seriamente para a filha. – Clara! Não quero que você conte mentiras por aí. A mamãe não está esperando bebê.
            - Ai mamãe... a Ceci vai sair da sua barriga sim. Eu não estou mentindo!



            Lorenzo não se importava com as brincadeiras de Clara. Até porque, o nome Cecília lhe agradava bastante e a ideia de ter outra filha também. Então ele apenas sorria e explicava aos amigos e familiares que Jéssica não estava grávida, o noivado não tinha outra razão que não sua certeza de que havia encontrado a mulher que lhe faria feliz para sempre e seu desejo de oficializar a família que na prática já contraíram.



            - Que ótimo, meu neto. – Vovô Francesco parabenizou o neto.
            - Mas que venha a Cecília hem! – Disse vovô Ângela.
            - Não se preocupe, vovó. Assim que ela estiver encomendada eu a aviso. Mas pode demorar um pouquinho.
            - Não sei qual a dificuldade desses jovens em fazer meus bisnetinhos. – Ela ainda lhe resmungou.


            Logo depois do jantar todos se recolheram. No dia seguinte seria o batizado e precisavam descansar. Jonas e Lorenzo pretendiam dormir. Mas não conseguiram. Tudo porque suas mulheres precisavam de atenção. Não que Vida tivesse atrapalhado o sono de Jonas, ela dormiu feito um anjo a noite toda depois que ganhou sua mamadeira morna às 8hs da noite. Já Emily acordou quando o relógio marcava 11h25 minutos e chamou Jonas para lhe satisfazer um desejo muito especial.

            - Eu preciso de uva! – Ela disse achando que seria fácil, afinal isso ali existia em grande quantidade.
            - Uva é muito pesado para comer a essa hora Emily. – Jonas argumentou.
            - Eu sei. Mas Bernardo quer. E eu preciso comer uvas recém colhidas do parreiral ou não conseguirei dormir. Por favor! Busca pra nós!
            - É quase meia noite e você quer que eu vá ao parreiral colher uva para você comer. É isso?
            - É! Por favor. É um desejo muito forte!

            Jonas foi, é claro que foi. Até porque, caso lhe negasse Emily iria buscar e nesse caso ele ficaria preocupado com ela. Além disso, perto dos sacrifícios que a esposa fazia para ter Bernardo, buscar algumas uvas era tarefa fácil. Ele iria na estufa, já que no parreiral aberto, nessa época não haveriam cachos de uva maduros para ela comer. Colocando um casado para lhe abrigar do vento frio que fazia aquela hora, pegou as chaves e saiu.
            Ao descer as escadas Jonas ouviu um barulho e resolveu ir conferir quem estava na cozinha. Poderia ser Rafael precisando de algo àquela hora. Mas não. Ao chegar na cozinha Jonas viu seu irmão fervendo leite no fogão. Era uma cena estranha, até porque Lorenzo dificilmente se hospedava na fazenda. Ele preferia ficar na sua casa, no centro da cidade. Dessa vez ficou apenas porque a temperatura caiu rapidamente e, como Clara adormeceu, ele não quis tirá-la de casa no frio. Então Giovanna preparou um quarto para eles, outro, não o que era dele e foi ocupado por Alice. Jonas se preocupou achando que fora isso que o impediu de dormir. Mas estava enganado. Não era um fantasma do passado a atormentá-lo. Era algo bem real, um problema só vivido pelos homens comprometidos: o dever de cuidar e minar as companheiras.

            - Algum problema Lorenzo?
            - Sim...mas é nada de mais. – Ele explicou tirando o leite do fogo e colocando em uma caneca. – Jéssica está gripada. Ela já estava doente e pegamos chuva na saída o aeroporto. Agora está com dor de garganta.
            - Quer levá-la ao hospital?
            - Não precisa. Ela está tomando antibiótico. Vou lhe dar esse leite com mel e ela vai dormir bem.
            - Foi por isso que você ficou aqui na fazenda? Para Jéssica não pegar o frio da noite?
            - Sim. E também porque agora não me incomoda mais. – Ele sorriu enquanto misturava a bebida ao mel e sentia o perfume adocicado. – Hoje Alice é uma lembrança feliz. Jéssica apagou todo o sofrimento que caminhar nessa casa me trazia. Mas o que você faz acordado...e vestido assim? Vai sair?
            - Sim. Emily quer uva. Pode acreditar?
            - Claro. Grávidas têm desejos. Tem na geladeira. É só pegar.
            - Não. Ela quer colhida da parreira! Agora me diga, como eu posso negar isso à ela?

            Lorenzo riu, aquela era uma boa razão para sair no frio da noite.

            - Não pode, meu irmão. Vá colher uvas para Emily. – Ele debochou. – Seu filho prova que puxou o sangue. Uva direto do parreiral tem outro sabor. Vá!
            - Veja no que nos transformamos, Lorenzo. Fazemos tudo para agradar Emily e Jéssica. Para dois solteirões, até que elas nos fisgaram hem.
            - Garanto que sou mais feliz hoje, mesmo esquentando leite a essa hora. E você também, Jonas.
            - Sem dúvida, sem dúvida. – Ele disse e saiu no frio da noite, sorrindo, e ansioso para conseguir satisfazer o desejo de Bernardo.

            Enquanto isso, Lorenzo entregava a caneca fumegante para a namorada. Com um fio de voz muito suave Jéssica agradeceu o mimo do noivo. Ela se sentou na cama e esperou que ele abrir a embalagem do remédio e lhe oferecer o comprimido.

            - Exatas seis horas após a última dose. Como diz a receita. Vamos torcer para que você já se sinta melhor amanhã. – Lorenzo lhe disse.
            - Eu podia ter tomado o remédio com água. – Jéssica respondeu, quase sem voz.
            - Podia. Mas leite com mel faz bem para a garganta e te fará bem. – Antes dela argumentar contra isso também, ele lhe beijou os lábios.
            - Você ficará gripado também! – Jéssica reclamou.
            - Não vou não. Além disso, acabo de descobrir um sabor fantástico: mel, leite e você! – Ele lhe deu mais um beijo depois de pegar a caneca vazia. – Feche os olhos e tente dormir, vou levar a louça na cozinha e ver se Clara está bem. Já venho. Boa noite, meu amor.
            - Boa noite. – Jéssica respondeu já sentindo os olhos se fecharem.

            Na manhã seguinte Emily acordou muito descansada e bem disposta. Havia comido as uvas mais gostosas de toda a sua vida, eram rosadas e açucaradas. Bernardo teve seu desejo satisfeito e ela, enfim, pode dormir abraçada em Jonas. Acordou sorrindo e ficou olhando o marido dormir mais alguns minutos. Ele não hesitou em realizar seu desejo. Jonas era assim, não media esforços para fazê-la feliz.

            - Bom dia! – Lhe disse beijando-o no maxilar e sentindo a barba dele lhe pinicar o rosto. – Obrigada por nos amar tanto assim.
            - Amo mesmo. Bom dia amor, bom dia Bernardo. – Ele lhe deu um beijo na barriga. – Gostou das uvas?
            - Muito, muito, muito papai! – Emily respondeu imitando a voz de uma criança. Eles riam até que ouviram o choro de Vida. – Ela quer a nossa atenção também. Vou pegá-la para dar de mamar enquanto você vai tomar banho.
            - Está bem, mas não se canse muito. Bernardo quer descansar.
            - Não se preocupe. Bernardo está ótimo. E depois vamos banhar Vida e vestir para o batizado. Ela será a bebê mais linda do universo.



            Poucos teriam coragem de negar aquela afirmação. Em um vestido branco, Vida aparentava ser um anjo gordinho e cheio de dobrinhas. Uma tiara enfeitava seus cabelos fininhos e escuros e ela sorria ao receber os afagos de seu pai.
            O idoso padre que casou Jonas e Emily voltou à fazenda para batizar Vida e após dizer algumas palavras lembrando o amor que deveria guiar o crescimento daquela criança, derramou algumas gotas de água benta sobre sua testa e fez o sinal da cruz. Melissa, a madrinha, acalentou-a e acabou com qualquer início de choro por ela ter se assustado com a água. Logo ela sorria feliz em retornar ao colo de sua mãe, agora já batizada. Por pedido de Jonas, Emily só dava colo para a filha estando sentada, não podia carregar peso. Então as duas ficaram ali, confortáveis numa poltrona, amando-se como mãe e filha. Olhavam-se nos olhos e se reconheciam. Vida prendia o olhar em sua mãe e sabia o quanto era amada, devolvia o sentimento em dobro e em cada um de seus sorrisos fazia o coração de Emily transbordar de amor. 


domingo, 20 de setembro de 2015

Diaba Ruiva - Passado Revelado: Cap 22


            Antes que Rachel tivesse a chance de chamar Verônica para a briga novamente ou iniciar uma discussão com Neal, Peter chamou os dois de volta ao FBI. Estava disposto a entender a ajudar seus amigos. Mas aquilo estava saindo do limite. Neal e suas mentiras, Rachel e seus escândalos. Juntos eles comprometeram uma operação importante do FBI. O encontro de Rachel na praça com representantes da quadrilha que vendia crianças não ocorreu e ele, como chefe da divisão de colarinho branco, responderia pelo erro.

            - O que vocês têm a me dizer sobre isso? – Perguntou aos dois.
            - Desculpe, Peter. Eu perdi a cabeça. – Rachel se desculpou. – Vou tentar remediar as coisas. Não se preocupe.
            - Eu também me desculpo. – Neal disse. – Agora se você puder nos deixar a sós. Preciso conversar com Rachel.
            - Eu não tenho nada para falar com você! – Ela disse e saiu sem dar a eles nenhuma oportunidade de convencê-la do contrário.

            Peter e Neal ficaram ali, encarando-se da mesma forma que há anos atrás. Sabiam que uma mentira pairava entre eles. E esperavam para ver quem seria o primeiro a falar. Dessa vez Peter não estava disposto a aceitar as mentiras de Neal Caffrey.



            - O que aquela mulher fez para atraí-lo até a praça, Neal?
            - Ela é mulher. Não basta?
            - Bastaria. Há alguns anos atrás. Hoje não. Você não é mais o garoto que não aguentava ver uma bela mulher.

            Neal não tinha alternativa. Estava com John em seu encalço e, de sua atitude, dependeria ele acreditar ou não no fim do relacionamento com Rachel. Se não acreditasse, voltaria seu ódio novamente para Rachel ou sumiria no mundo juntando forças para mais uma vez caçar o diamante que Rachel agora guardava em algum lugar de sua casa. Resolveu então abrir o jogo. Mas não ali.

            - Vamos conversar eu, você e Mozz, hoje a noite no apartamento de June. Mas Elizabeth não pode saber de nada. Ela contaria para Rachel. E se Rachel souber todo meu esforço se esvai.

            Verônica chegou ao esconderijo onde John vivia após dar muitas voltas para despistar o FBI, caso tivessem resolvido lhe seguir. Treinamento para isso não lhe faltou nos anos de convivência com John Turner. Seu pai era um especialista em prender e em escapar da prisão. Sabia cometer crimes de inteligência e também matar. Assim como Rachel, a mulher que também o chamava de pai, mas que jamais consideraria sua irmã.

            - Porque você está nesse estado, garota? Caffrey fez isso? – John havia estranho a demora da filha. No momento ela era sua única aliada e se algo lhe acontecesse seria um grande risco. Mesmo longe de ter a mesma competência de Rachel, Verônica lhe era útil. Ela também estava alguns degraus abaixo no quesito inteligência e não era difícil manobrá-la.
            - Neal, não. Foi ela. Sua filhinha ruiva. Ela nos viu juntos e veio me agredir. Gritou com ele, me bateu. Até que os amiguinhos do FBI chegaram para segurá-la. Eles não estão mais juntos, eu garanto.
            - Não seguiram você?
            - É claro que não. Eu não sou burra.
            - Assim espero. – John afirmou.

            Essa incerteza mexeu com os planos de John. Aquela separação ainda não o tinha convencido. Pensou que Caffrey tentava enganá-lo, aliado a Rachel. Se ela foi capaz de agredir Verônica por vê-los juntos, Neal Caffrey e realmente havia posto fim ao enlace, abandonado-a, poderia tê-lo como aliado. Por outro lado, se havia ciúme, o relacionamento ainda poderia ser reatado. Era hora de pensar seriamente em ter Neal como aliado. E, quem sabe, usar Rachel.

            - Agora sim, você realmente me interessa Neal.
            - E também a mim, papai. – Verônica disse.
            - Eu não contaria com isso, querida. – Neal não era tão tolo assim. – Amanhã nós tomaremos uma atitude. Vá descansar, querida. Seu dia foi longo.



            Descanso não estava nos planos de Neal. Em seu antigo apartamento ele reuniu-se com Peter e Mozz. Falou muito enquanto eles, parecendo antigos aliados, apenas ouviram. Contou da sua aproximação com John, o envolvimento com Verônica, a briga com Rachel, a separação e a distância dos filhos.

            - Então toda aquela reclamação dela estar se colocando em perigo não passava de uma mentira? – Mozz estava magoado por ter sido enganado. – Neal! Como pode!
            - Não foi bem assim, eu estava chateado com ela. Rachel...Rachel passa do limite. Ela não observa o risco. E eu realmente sinto medo por ela. Pela nossa família. – Neal explicou.
            - E como nos enganar, se separar da Rachel e sair com Verônica iriam ajudar sua família? – Peter estava possesso.
            - Eu precisava encontrar um meio de acabar com John. Só preso...ou morto ele nos deixará em paz. Então Verônica se aproximou de mim e me levou até John.
            - Você esteve com ele?!?! – Uma coisa não encaixava naquilo. – E a sua tornozeleira?
            - Peter...desculpa...mas você sabe que pra mim isso não é obstáculo.

            Neal havia simplesmente acessado o sistema do FBI e mexido nos registros. Era simples também desligar a tornozeleira. Para os outros, até poderia ser difícil, mas não para ele.

            - Depois nós vamos conversar a respeito disso. – Ele tinha assuntos mais importantes. – Se conseguiu se encontrar com ele, porque não nos avisou o local para prendê-lo.
            - Porque não sei onde ele está. E nós dois sabemos que para John desaparecer novamente basta que ele desconfie que estamos perto. Ele acha que eu tenho pistas que podem ler ao diamante, mas não sabe que ele já está com Rachel. É isso que a mantém em segurança. Verônica é minha ligação com John. Preciso que ele confie em mim. E se isso acontecer, levarei o FBI até ele, acabo com ele e refaço meu casamento.

            Isso, se Rachel ainda o quiser, foi o que Peter pensou. Agora entendia as atitudes do amigo. Mas achava muito arriscada a sua postura. John já tinha dado provas de ser muito mais que um bandido. Ele beirava à loucura. Passou a vida obcecado por um roubo e usou Rachel, Verônica e talvez outros mais para cometer crimes em seu lugar. Tudo no intuito de encontrar o diamante. Peter e Mozz ali firmaram um pacto. Se tudo o que Neal fez foi arriscado, agora não podiam voltar atrás.

            - Estou dentro. – Decretou Mozz para então se levantar. – Mas agora preciso ir.
            - Aonde você vai? – Neal não espera isso do amigo.
            - Vou encontrar Olívia. Estou atrasado.
            - Olívia? A assistente social?
            - Essa mesma! Porque a surpresa, Neal? Você não é o único que pode se encontrar com uma bela loura pelas praças da cidade. Agora com licença. Qualquer evolução com sua Verônica Saldanha me avise.
            - Eu também estou dentro do plano. – Peter confirmou. – Amanhã Verônica irá procurá-lo você descobrirá onde ele está. Vai nos acionar. E vamos enfim fechar as algemas em John Turner. Resta saber como Rachel reagirá a tudo isso. Ela está muito revoltada.



            Revoltada estava muito longe de descrever fielmente o estado de espírito de Rachel. Seu sangue fervia ao lembrar de Neal com a loura. Arrependia-se de ter batido nela. Ele deveria ter sido seu alvo. Levou apenas uma bofetada quando deveria, no mínimo, tê-lo deixado com algumas gotas de sangue a menos e dentes faltando na boca.

            - Quem sabe assim ficaria menos bonito e essas vadias sairiam de perto. – Disse ela, mas, no fundo, sabia que nem assim seu marido seria menos maravilhoso.

            O ódio lhe fez tomar uma decisão definitiva. Há dias David Williams, o pai a quem ainda não tinha se acostumado de chamar por ‘pai’ lhe informou que tentava suavizar sua pena e,usando de todo o peso de seu nome, tinha esperança de conseguir um indulto inglês e americano. Junto disso ele lhe fez um convite.

            -Passe alguns dias em Londres com a sua família. – Convidou-a.

            Naquele dia ela não respondeu nem sim nem não. Tinha esperança de acertar as coisas com Neal e ter sua família de volta. Mas, agora, já não pensava assim. Chamou David para um jantar e avisou que havia mudado de ideia. Iria com ele para Londres levando George e Helen, além de muita magoa contra Neal. Avisou que adoraria passar alguns dias com seus filhos, mãe, pai, irmã e, também, por que não, Nohan. Esse adendo familiar não passou despercebido de David.



            - Não é segredo de ninguém, minha amada filha, que Nohan é um jovem muito importante pra mim. É um amigo particular, de minha total confiança. Eu adoraria tê-lo junto de uma de minhas filhas.
            - Acho que eu já estou muito velha para termos esse tipo de conversa, David.
            - Pode ser. Pode ser. Vamos todos sim para Londres. Eu incluirei Nohan na viagem para agradá-la. – Estava disposto a muito mais por ela. – Mas lhe peço para não brincar com os sentimentos de Nohan. Ele tem especial....simpatia por você.
            - Não pretendo brincar com ninguém. Quando vamos?
            - Nos próximos dias. Sua mãe e Chiara já estão de volta a Inglaterra. Vou conferir com Melissa sua disponibilidade. Estou muito feliz com a possibilidade de enfim ter minha família reunida. – Uma dúvida surgiu na mente de David. – Está guardando bem seu diamante?
            - Sim. Dei-lhe o local mais seguro de todos: o FBI. Qual ladrão ousaria invadi-lo?
            - Tão ousado assim, eu só conheço o seu marido. – E esse não tinha interesse algum naquela pedra. – Eu tenho de ir, minha filha. Continuará naquela casa?
            - Por enquanto sim, mas vou procurar outra. Não quero viver ali sem Neal.
            - Eu entendo. Se precisar de algo, conte com seu pai. Sempre. – Novamente David despediu-se da filha sem um beijo. Ainda tinham muito caminho até alcançar aquele ponto do relacionamento.

            Na manhã seguinte John Turner acordou decidido e deu ordens claras à Verônica. Era hora dela provar ser mais forte e mais inteligente que Rachel. E atiçar a inveja da loura era sua melhor arma. Sempre soube e colaborou para que Verônica se inspirasse em Rachel. Vencer a outra foi seu objetivo sempre. Foi para isso que ela treinou e estudou a maior parte da vida. Não para ser a melhor. Para ser melhor que Rachel.

            - É sua chance, Verônica. Está disposta? – John instigou-a.
            - Sim, papai. Eu vou pegá-la. – Verônica garantiu.

            No meio da tarde John colocou seu plano em ação. Verônica ligou para Neal e marcou um novo encontro. Não deu detalhes. Disse apenas que Neal deveria encontrá-lo em um determinado ponto de New York às 18hs.

            - Por quê? Eu estou cansando dessa brincadeirinha.
            - Calma, Neal. Tudo ao seu tempo. – Verônica repetiu.

            Dessa vez Neal não manteve segredo. Avisou Peter do que faria, mas exigiu que ele não invadisse o local, caso conseguisse ser levado até lá novamente, sem que fosse segura a prisão. Iriam conseguir. Ele então aproveitou para buscar por notícias de sua amada.

            - Onde está Rachel? Eu não a vi hoje.
            - Não veio. David enviou um aviso que ela estava liberada dos casos entre hoje e amanhã. Parece que está tentando flexibilizar a pena. Muito em breve Rachel viajará com ele, Neal. Você tem de aceitar.
            - Não vou aceitar nada! Ela é minha mulher. Esse homem está é tentando jogá-la para cima daquele embaixador. E eu não vou permitir.
            - Então trate de encerrar tudo isso e conseguir contar a verdade. Porque logo você não terá mais essa chance. – Peter disse e encerrou o assunto. Os problemas conjugais de Neal eram a última das suas preocupações.

            Assim que Neal se retirou Peter avisou Diana que ela e Henrique deveriam se colocar na cola de Neal. Ele e Verônica não deveriam conseguir despistá-los, mas não poderiam perceber que havia alguém seguindo seus passos.
            A dupla de policiais viu os dois criminosos beberem em um bar. O sinal da tornozeleira de Caffrey estava forte. Neal agia tranquilamente, mas os anos de amizade e convivência ensinaram Diana a perceber seu nervosismo. Neal estava mudado, nervoso e ansioso para por fim naquilo tudo.



            - Sua mulher é perigosa, Neal. E tem a mão pesada.
            - Sim, eu sei. Mas ela é passado. Nós podemos ter um futuro. – Seduzi-la podia ser um caminho.
            - Talvez, talvez, bonitão. Acho que serei boazinha com você.
            - Vai é? Como?
            - Vou te levar até John. Ele autorizou. Desligue a tornozeleira. Nós dois sabemos que você pode faze isso sem chamar a atenção das autoridades. Vamos, Neal. Se quer encontrar John, essa é a hora.

            Neal podia realmente desativar a tornozeleira e deixá-la ali sem maiores dificuldades. Porém, chegara a hora de contar com a ajuda de Peter, não de enganá-lo. Ele desativou o rastreador, mas antes deixou-a dar um único alerta. O aviso que Diana necessitava.

            - Chefe! É agora. – A agente prontamente avisou Peter.
            - Acompanhe-os à distância. Vou avisar Rachel. – Peter comemorou em sua sala. Rapidamente ele mandou uma mensagem para Ell informando que não conseguiria voltar cedo para casa. E logo depois pegou o telefone para tentar localizar Rachel.

            Não iria conseguir. Naquele momento Rachel chegava para pegar seu carro, sozinha. Não fora apenas Neal a receber uma ligação especial naquele dia. Ela também marcara um encontro. Com Nohan, para uma bebida qualquer. Nada demais. Para isso deixou seus filhos na segurança dos braços de June e seguiu. Mas assim que entrou em seu carro soube que aquela noite tomaria novos rumos.



            John. Na sua frente. E naquele momento ele já não lhe despertava nenhum sentimento paternal. Ela apenas se assustou com sua presença. Não quis abraçá-lo. Não quis ajudá-lo. Também não conseguiu se imaginar ferindo-o. Queria apenas ver-se livre dele e, se fosse possível, voltar no tempo e jamais ter-se permitido amar aquele ser.

            - O que você quer? – Foi tudo o que conseguiu dizer.
            - Acalme-se, querida. Nós vamos dar um passeio. – John estava sério. Sem sorrisos falsos para Rachel. Não conseguiria enganá-la. Então não tentava. – Entre no carro.
            - Não mesmo.
            - Sim, querida. Não nos crie problemas desnecessários. – Ele lhe mostrou a arma que carregava e Rachel então soube que ele não teria problema algum em fazer o disparo.
            - Você atiraria em mim? Você me criou, me ensinou a ser em quem sou. Seria capaz de me matar, John?
            - Sim, Rachel. Pode apostar nisso. E sabe por quê? É que eu seu do que você é capaz. Se não entrar nesse carro comigo agora mesmo e dirigir calada, você nunca mais vai pôr os olhos em George ou em Helen. Nem mesmo Neal poderá ajudá-la dessa vez.



            Neal e Rachel não sabiam, mas estavam seguindo para a mesma direção. A diferença é que Neal entraria caminhando pelas próprias pernas e ainda sem saber em quem podia confiar ou não. Rachel recebeu uma coronhada na cabeça assim que estacionou o carro e apagou sobre o volante. Não entendeu qual seu papel naquele jogo.
            Quando acordou aquilo ficou bem claro. John sabia que não conseguiria jogar com a filha adotiva. Então a usaria como isca e faria Neal fazer exatamente o que ele desejasse. Verônica o buscou. E Neal chegou aquele esconderijo sabendo que veria John. Só não esperava ver Rachel amarrada e sob a mira do seu revólver.

            - Neal! Que bom que chegou. Agora o time está completo.



            Neal ficou pálido. Não esperava por aquilo. Sabia que o FBI estava em sua cola, mas agora a possibilidade deles invadirem o lugar o assustava. Rachel não sairia dali viva caso John sentisse que foi enganado.

            - Porque isso, John? Eu estou aqui. Sou seu aliado. – Neal gritou.
            - Aliado? O que? – Rachel espantou-se. – Não! Neal! Você me traiu!
            - Cale a boca dela papai! – Verônica gritou avançando sobre Rachel e arranhando-lhe o rosto numa vingança mesquinha. – Veja quem manda agora.
            - Fique quieta Verônica. – John ordenou. – Quem manda aqui sou eu. E você, Neal, não passa de um garotinho ingênuo se pensa que me enganou. Eu lhe dei uma chance. Você desperdiçou-a. Agora terei de agir de outra forma.
            - Que forma? Solte-a.
            - Não mesmo. – John respondeu. É simples. Você quer Rachel viva? Coloque o diamante na minha mão.

            Neal e Rachel trocaram um olha sob a mira de John Turner. Só Rachel sabia o local exato do diamante. E ela não estava disposta a falar.

            - Vá Neal. Vá buscar o meu diamante. Se ao amanhecer ele não estiver na palma da minha mão, Rachel morre. Verônica vai acompanhá-lo enquanto eu faço companhia a minha bela filha.
            - Desgraçado!

            - Seu tempo está correndo, Neal.