domingo, 31 de maio de 2015

Diaba Ruiva - Passado Revelado: Cap 16


            Rachel encarava Mozz num olhar nada amigável. Até mesmo Neal não parecia muito simpática à ideia se aproximar da assistente social que viera vistoriar a casa. Mas Mozz não podia desistir. Não quando aquilo iria ajudar Ell e Sofia. Resolveu então se explicar.

            - Eu entendo, Rachel, que você não queira essa assistente social jogando charme para o Neal. Mas, convenhamos, as mulheres fazem isso o tempo todo. Ninguém mandou você se casar com um homem como ele, que todo o ser do sexo feminino quer um pedaço porque o acha lindo, charmoso e maravilhoso e...
            - Você não está me ajudando, Mozz! – Neal cortou-o antes Rachel explodisse de raiva e ciúme. Ela continuava encarando-o com a expressão muito feia e desconfiada.



            - Está bem, está bem. É pela Sofia e por Ell. E até pelo Peter...mesmo vocês sabendo que por ele eu não perderia tanto do meu tempo.
            - E como essa mulher pode ajudar os Burke? – Rachel queria saber tudo.

            E Mozzie contou tudo, em detalhes, quase num fôlego só. Seu plano era simples. Precisavam de um parecer favorável à Sofia permanecer onde estava. Algo que ao menos atrase os planos dos seus interesseiros tios. Enquanto isso, precisariam provar que eram gananciosos e desejavam apenas o dinheiro da menina.

            - Mas qualquer assistente social daria parecer positivo. Elizabeth é ótima mãe. Não precisamos da Olívia! – Rachel respondeu.
            - Mas seria uma garantia. É importante, Rachel!
            - É mesmo. – Neal respondeu sabendo que Rachel não deixaria os amigos sem ajuda. – Mas existem dezenas de assistentes sociais em New York. Olivia não poderá ajudar.
            - Eu encontrarei um meio de que o caso de Sofia caia na mesa de Olívia. Mas, antes disso, ela já deve estar envolvida com você...conosco...com os Burke. Vocês entenderam!

            Rachel preferiu não participar de tudo aquilo. O que os não vem, o coração não sente, dizem. Além disso, Neal estava bem avisado de que deveria manter as mãos de Olívia bem distantes dele. Preferiu ir cuidar de seus problemas particulares. E Thomas Carter, mesmo preso, ainda conseguia mantê-la preocupada. Perguntava-se como ele sabia do seu diamante e se poderia ter mais informações do que ela. Mas iria até Carter. Era isso o que ele desejava, que fosse até o presídio ainda hoje, antes dele ser deportado à Inglaterra. Claro que ela não iria. Ou com aquela coleira eletrônica que o FBI a obrigava a usar, saberiam que foi visitar um criminoso e ela seria presa. Era esse o plano dele. Deitou-se pensando nisso enquanto os homens ainda estavam na sala.

            - Ainda acordada? – Neal aproximou-se testando o terreno. – Não está preocupada com Olívia, certo?
            - Não. Olívia está longe dos meus pensamentos. Afinal eu tenho um marido fiel.
            - Tem mesmo. No que pensa, então?
            - No diamante. Preciso intensificar nossas buscas. E com Carter, perdemos muito tempo. Amanhã, enquanto você joga seu charme em Olívia, vou checar aqueles endereços. Com Peter distraído pelos problemas, é a nossa chance.
            - Ótimo. Só acho que eu e Mozzie precisaremos da sua ajuda numa parte do nosso plano. – Seria um dia muito divertido.
            - Vamos burlar algumas regras? Já estou ansiosa por amanhã. Vamos dormir.



            Na manhã seguinte, queriam muito permanecer na cama. Mas foi não foi impossível. Neal correu para o FBI. Ia adiantar seu trabalho para, na hora do almoço, sair com Mozzie. Peter não podia desconfiar de nada do que fariam. Rachel deixou as crianças na escola e foi atrás de seu passado. Tinha à sua frente um mapa com dois endereços marcados. Um deles estação de metro Lexington Avenue – 63rd Street. Uma pista lhe levava para lá, porém a data de fundação do lugar desmontava essa hipótese. Restava uma única hipótese. Um prédio da década de 30. Sala 709. Essa era a sala onde trabalhava o homem que teve seu diamante em mãos. Foi essa a informação que arrancou de um criminoso das antigas, anos atrás.

            - E como eu confirmo isso? – Ela pressionou.
            - Só perguntando pra ele. Pena que bateu as botas tempos atrás. – Ele respondeu, debochado.

            Impossível dizer se aquela pedra estava até hoje lá ou se o defunto teve tempo de resgatá-la do prédio. Teria de bater à porta do 709 e descobrir o que havia por lá. E seria isso o que faria naquela manhã. Mesmo que, para isso, tivesse de faltar ao trabalho no FBI.
            Rachel não foi a única a se atrasar para o trabalho. Henrique estava com sérios problemas. Um problema barulhento, saltitante e animado. E que fazia Sara caminhar em círculos pelo apartamento, fazendo seus saltos, estridentes, baterem repetidamente no chão e dando o tom do seu nível de estresse.

            - Acalme-se! Por favor, Sara! Vai assustá-lo!
            - Assustada estou eu, Henrique! Como assim esse menino é seu sobrinho e vai viver aqui agora?

            Também não estava nos planos dele, mas diante da situação, era o menor dos problemas de Henrique. Seu irmão e sua cunhada sofreram um acidente de carro. Estavam mortos. E aquele menino, de apenas quatro anos, não tinha ninguém além dele no mundo. Não podia virar-lhe as costas. Foi um choque. Ele foi chamado na Inglaterra por conta disso e quando disseram que Nicolas estava num abrigo, responsabilizou-se por ele. O menino tinha mudado de país e precisava de atenção. Algo que Sara parecia não perceber.



            - Eu não posso simplesmente me livrar dele!
            - Eu sei...mas...não tem mais ninguém?
            - Ninguém melhor do que eu, Sara.

            Foi com a cabeça cansada pela briga com Sara que Henrique chegou no FBI. Neal percebeu que ele não estava bem, mas, como estavam longe de ser amigos, não comentou nada. Todos estavam envolvidos em algum caso, menos Rachel, que não havia aparecido.

            - O Peter quer falar com a sua mulher, Neal. – Diana avisou.
            - Logo ela deve aparecer. – Ele teve de disfarçar.

            Ainda levaria algum tempo. Afinal, naquele momento, Rachel conversava com antigos frequentadores do prédio. Era um edifício muito antigo, simples e com pouca segurança, se comparado aos ricos condomínios empresariais da cidade. E, por isso mesmo, um ótimo esconderijo para uma pedra preciosa. Mas ninguém conhecia o proprietário da sala 709. O jeito foi tentar informações na portaria mesmo.



            - Bom dia, o senhor pode me dar uma informação? – Disse ao homem usando de todo o seu charme e persuasão.
            - É, claro.
            - Eu preciso muito conversar com o proprietário da sala 709.
            - Infelizmente não poderei ajudá-la, Senhorita. O proprietário não vem aqui com frequência.
            - Poderia me dar seu contato? Seu nome?
            - Não. Infelizmente não. – Seu olhar era duro e, obviamente, o funcionário não gostava de ser pressionado.

            Rachel saiu enraivecida. Ela planejava entrar na sala de alguma forma na sala. Era bom saber que o local ficava abandonado vários dias. Se tivesse ficado observando, veria o funcionário do prédio correr ao telefone. Tinha uma ligação importante à fazer.

            - Ela esteve aqui. Está chegando perto. – Avisou.
            - Obrigado por avisar. Agora falta pouco. – Ouviu em resposta.

            Quando voltou ao FBI Rachel também não se dedicou muito aos casos. Peter sequer a viu entrar, estava ao telefone, com a expressão bem fechada. Talvez fosse com Elizabeth. Ela então concentrou-se no que Mozz tinha lhe pedido por mensagem de texto. Pesquisou sobre Patrícia e Talles Harris. E depois foi até a casa dela. A tia de Sofia merecia uma simpática visita. Para sua surpresa, Patrícia não a impediu de entrar em sua casa, nem fingiu não tê-la reconhecido. Era uma mulher esperta e não ofendeu sua inteligência.

            - Eu sei quem você é Rachel.



            - Que ótimo. – Rachel respondeu. – Assim economizamos apresentação.
            - Se veio bancar a amiguinha de Elizabeth Burke e me intimidar, caia fora. Não tenho medo de você.
            - Pois deveria. – Disse bem séria. – Mas não precisamos chegar a esse ponto. Respeito suas motivações. A conta bancária de Sofia é muito atrativa mesmo.
            - Eu quero minha sobrinha, não o dinheiro dela. Eu amo a menina. – Patrícia tinha o discurso pronto.
            - Claro, claro. E eu fui condenada injustamente. Jamais matei ninguém! Eu dispenso o papinho de enganar juiz Patrícia. Guarde suas mentiras para alguém que acredite.
            - O que você deseja?



            - A amizade, Patrícia. Podemos ser boas amigas.
            - E porque eu desejaria ser amiga de alguém ligado a Elizabeth Burke?
            - Porque os Burke são os pais da Sofia! A sua sobrinha que você ama. Lembra? E também porque se eu for sua inimiga, será muito, muito pior. Você terá notícias minhas!

            Ela deixou a casa e não virou para ver a expressão confusa de Patrícia Harris. Depois pegou um taxi ainda decidindo se ai ou não ao FBI. Neal não atendia ao celular. Então ligou para Mozzie.

            - Já fiz minha parte. Já posso ter meu marido de volta? – Perguntou.
            - Ainda não. Neal e estamos num bar que Olívia frequenta. Ela deve aparecer logo logo e, coincidentemente, vamos beber juntos.
            - Eu prefiroo não saber dos detalhes, Mozz.
            - Não seja ciumenta, Rachel. Neal nem liga para Olívia. E, se você deseja saber, ele também não gostou nada de saber do meu plano com Patrícia. Me diga, ela se interessou por você?
           
            Durante suas investigações, Mozzie descobriu que Patrícia, apesar de sempre usar os homens dos quais precisava de algo e ser atualmente casada com Talles, sempre envolveu-se com mulheres. Lésbica, seduziu e casou com ele apenas para ter o dinheiro de o dinheiro de Sofia ao alcance. Ao saber disso, Mozz percebeu que outra mulher, tão esperta quanto Patrícia, poderia desconcentrá-la. E fazer com que Talles visse quem ela era de verdade. Sem o apoio do marido, Patrícia não colocaria as mãos em Sofia.

            - Ela gosta de perigo. Eu joguei a isca e vou esperar ela morder. – Rachel respondeu. – Ela vai me procurar. Logo. E nós vamos registrar uma cena bem quente para o querido Talles se decepcionar.
            - Ótimo. Porque já ajustei tudo para amanhã o caso de Sophia ser entregue para Olívia. Hoje nós vamos adoçá-la e ela se sentirá muito simpática em relação a Ell. Sairemos vencedores.
            - Ótimo, Mozzie. Porque quando tudo isso terminar, precisarei do seu apoio. Como vão as pesquisas sobre Melissa?
            - Digamos que eu estive um pouco ocupado.
            - Eu sei, Mozz. Mas preciso que se empenhe nisso assim que Sophia esteja em segurança.
            - Conte comigo. – Mozz respondeu. – Agora tenho de desligar porque Olívia está chegando e já viu Neal.

            Sem dar chance para Rachel responder, Mozz desligou e ficou observando a bela loira se aproximar. Neal acenou, fazendo cara de surpreso, e chamou-a até sua mesa. Claro que ela veio. Elas dificilmente dizem não a Neal Caffrey. Olívia sentou-se, aceitou uma bebida e conversou. Neal desculpou-se pelo comportamento ciumento de Rachel afinal, eles passavam por um momento difícil.

            - Não por aquelas lindas crianças, suponho. – Olívia respondeu.
            - Não. Na verdade trata-se de um casal muito amigo nosso. – Mozz interferiu. – Aliás, permita-me que me apresente. Sou Mozzie. Um amigo de Neal e Rachel.
            - Claro! O George falou de você com entusiasmo. Você é um tio muito querido, Mozz. Me conte de que se trata o problema.

            Neal sentiu-se um tanto excluído. Olívia parecia encantada sim, mas não por ele. O que era algo surpreendente. Então deixou os dois a sós e foi buscar outra rodada de bebidas. Quando voltou, eles pareciam amigos íntimos. Muito íntimos.

            - Seria uma injustiça que essa família tão harmoniosa fosse desmanchada. Se eu tivesse como ajudar, Mozz, faria. – Olívia derreteu-se pela triste história contada por Mozz. A família que adotou a menina Sophia e agora podia perdê-la.
            - Não se preocupe, Olívia. Vamos torcer para que a profissional que o Estado escolher para o caso também tenha o seu bom coração. – Mozz respondeu sabendo que amanhã o documento estaria com Olívia. Ele mesmo trocou o endereçamento dos envelopes.

            No fim da tarde, quando voltaram para casa, Neal sentia o ego um pouco machucado.

            - Olívia mais interessada em você do que em mim. E Rachel jogando charme para Patrícia. É, hoje não foi meu dia de sorte.



            - Não seja guloso Neal. Você não queria nada com Olívia mesmo. Digamos que foi até bom. Assim Rachel não o põem para dormir no sofá por ciúme.

            Era verdade. Rachel não criou brigas naquela noite, nem no dia seguinte. Estava concentrada em suas missões. Ajudar Elizabeth seduzindo Patrícia e conseguir entrar naquele endereço. Precisava entrar na sala 709 do antigo prédio e ver o que ele escondia. Naquela manhã retornou ao endereço e novamente não conseguiu passar da portaria. Para piorar, percebeu que o porteiro a havia reconhecido.
            Então resolveu manter-se mais afastada e seguir trabalhando. Afinal, seus sumiços logo seriam motivo de estranhamento por Peter. Mesmo estressado pelos problemas familiares, ele era daquele tipo de chefe que sempre sabia onde cada integrante de sua equipe estava. A sorte de Rachel é que todos ali andavam cheios de problemas. As semanas seguintes foram estranhas, cheias de atrasos e compromissos de ultima hora, permitindo a Rachel fazer suas escapadas e vigiar o prédio. Mesmo assim, Peter via. E pediu para Diana observar de perto o que se passava.

            - Peça que seja feito um relatório dos registros de locomoção da Rachel. A tornozeleira dela nos dirá onde que ela vai quando some assim.
            - Mozzie pediu a ela para ajudar no caso de Sophia. – Diana lembrou o chefe.
            - Eu sei. E ele não me disse como Rachel ajudaria. Espero que não seja nada ilegal. Mas o fato é que tenho o palpite de que Rachel está se aproveitando dessa liberdade que tem pelo fato de estar me ajudando para objetivos particulares. E não gosto de ser enganado. Peça o relatório, Diana. E eu conto com sua lealdade nisso.
            - Claro, chefe.

            Quem também estava deixando seus problemas particulares influenciarem o trabalho no FBI era Henrique. Seu sobrinho estava há três semanas em sua casa. E ele não sabia o que fazer. E o comportamento de Sara também não ajudou.




            Henrique estava longe de ser amigo de Neal. Mas, vendo-o desconcentrado e irritado, chamou para uma conversa informal. Quando ele aceitou, viu que o problema era grave.

            - Diga logo o que há! Se eu e Rachel pudermos ajudar. – Ofereceu.
            - Vocês não. Mas talvez George possa.
            - George? O meu filho pode ajudar você? – Neal não entendeu nada.

            Quando Henrique explicou que Nicolas havia caído em sua vida e que, mesmo isso trazendo problemas aos montes, não pretendia abandoná-lo, Neal sentiu simpatia pelo colega. Ainda se lembrava de seu desespero na primeira noite com George. Ouvindo-o chorar e não saber o que fazer. Ser pai, assim, sem treino, não era fácil. E Henrique poderia estar certo. Um amiguinho faria bem ao menino que acabara de perder a mãe e o pai e veio morar numa cidade estranha.

            - E Sara? Como está lidando com isso? – Ele precisou saber.
            - Já ameaçou me deixar umas três vezes. Diz que não serve para babá. E está pensando em voltar para a Europa. Eu e Nicolas não fomos convidados a acompanhá-la, é claro.
            - Eu sinto muito. – Neal já tinha sido abandonado uma vez por Sara. Lembrava bem da sensação. – A Rachel que não me ouça, mas, se eu fosse você, não desistiria dela. Luta pela Sara. É uma mulher complicada, mas fantástica.
            - Mas não para ter família. Você perdeu Sara, mas construiu a sua.
            - Fui fisgado pela minha ruiva. Não foi questão de escolha. A vida quis assim, mas se você ama Sara, mostre para ela que Nicolas adoraria tê-la como mãe.
            - E se ela não quiser?
            - Então deixe-a ir e cuide de seu sobrinho.

            O tempo passou e quando já faziam muitos dias do encontro de Rachel e Patrícia, a tia de Sophia procurou pela ruiva. Rachel já estava preocupada achando que seu charme não havia picado a bandida. Afinal, nunca havia se envolvido com outra mulher antes. Mas Patrícia, ousadamente, telefonou para o FBI desejando marcar um encontro. Disse ter repensado seu comportamento e percebido que elas poderiam ser ótimas amigas.

            - Você gosta do perigo, Patrícia. E vai cair perfeitamente. – Ela ligou para Mozzie. – Nossa ratazana está a caminho da ratoeira. Marquei num hotel. Preciso que você instale câmeras.
            - Perfeito!

            Na hora marcada, ela estava lá. O equipamento estava lá. E chegara a hora do show. Rachel se vestiu no limite no sensual e do romântico. Seduzir mulheres não era sua praia, mas imaginava, não deveria ser muito diferente. A campainha tocou e teve de encarar o desafio.        



            - Patrícia! Não sabe a ansiedade que senti esperando você. Você me pareceu tão desconfiada quando lhe visitei que, tive receio, não nos veríamos mais.
            - Eu...fiquei na dúvida. Você é amiga de Elizabeth. E...
            - E o que? Diga! – Rachel incentivou.
            - Você tem esse ar de perigo.
            - E você gosta do perigo. É isso, Patrícia?



            - É. Eu gosto. Me senti atraída.
            - Que bom. – Rachel tornou o tom de voz mais baixo, quase um sussurro. – Vamos deixar Elizabeth longe de nós. Eu não quero me envolver com esse assunto.


            - Será que eu posso mesmo confiar em você, Rachel?
            - Não. – Não podia tentar passar-se como santa, ou ela desconfiaria. – Ninguém deve confiar em gente como eu. Como nós. Somo iguais, Patrícia. Muito iguais.



            O beijo soou como natural para Patrícia. Quase como se fosse ela a armar, a tomar a iniciativa. Tão acostumada a armar arapucas, tinha caído direitinho no plano de Mozz. Ele e Neal assistiam tudo do outro quarto, ao lado, em que junto com Ell e Peter, puderam acompanhar a atuação de Rachel.
            Tudo estava combinado. Quando tivessem registros o suficiente para minar o casamento dos Harris, Neal iria telefonar para o celular de Rachel e estragar o momento de romance das duas.
            Uma coisa levou a outra e Patrícia, rapidamente, tirou as próprias roupas e arrancou a blusa de Rachel. Foram para o chão enquanto trocaram carícias que irritaram, e muito, Neal Caffrey. Antes do planejado, mas já com as imagens de que necessitavam, Neal ligou pra Rachel.



             - É meu marido! Meu marido! – Rachel ergueu-se do chão agradecida pelo toque do celular. O gosto daquela mulher era repugnante. E isso nada tinha a ver com ser mulher, mas sim com o fato de não sentir nada de bom. – Alô! Neal! Eu sei que estou atrasada querido.
            - Preciso que venha para casa agora! Estou com problema com as crianças! – Disse alto o bastante para Patrícia também ouvir.
            - Sim, sim. Estou indo. – Ela desligou rapidamente e logo estava se vestindo. – Desculpe, Patrícia. Mas preciso ir. Agora!
            - Eu vou te ver logo? Não vou?
            - Claro, querida. Vamos nos ver muito em breve.

            Na verdade, não foi tão breve assim. Porque agora tudo estava nas mãos de Mozzie. O parecer da juíza a respeito de com quem Sophia deveria crescer sairia em três dias. Ela ainda iria analisar o relatório de Olívia e ouvir os dois casais envolvidos, no julgamento.
            Quando o dia chegou, Rachel, Neal, Mozzie e outros convidados viram tudo sentados na plateia. Estavam ansiosos. A primeira a falar foi Ell. Ela contou sobre como Sophia lhe era importante, trouxe amor para sua casa e uniu ainda mais ela e Peter. Ele também disse não ter como imaginar sua casa sem Sophia. Ele também lembrou o quanto ela era apegada à sua irmã mais nova, Valentina.
            A pequena Sophia também foi ouvida. Estava tímida. Não queria desfazer dos pais, nem magoar os tios que pareciam desejar tê-la por perto. Mas, quando a juíza perguntou, não teve dúvida em responder.

            - Quero ficar com minha mãe, meu pai e minha irmã. – Disse claramente.

            Olívia foi a próxima a ser ouvida. Orgulhosamente, disse à juíza e aos presentes que não tinha dúvida alguma em afirmar que os Burke eram os melhores pais possíveis para Sophia. E que tirá-la daquele lar não só seria um erro, mas também uma crueldade com a menina.

            - Sophia Burke é amada por seu pai e sua mãe. Ela deve seguir com os Burke. – Reiterou antes de se retirar.

            Mozzie não poderia estar mais satisfeito! Metade do plano saiu perfeitamente. E o restante tinha tudo para ser assim também. Logo cedo Talles recebeu as provas do encontro de Rachel e Patrícia. Era impossível prever seu comportamento no julgamento. Até o momento ele nem estava por ali. E era possível perceber o nervosismo de Patrícia quando foi chamada para falar. Mesmo nervosa, ela manteve o discurso de boa tia.

            - Respeito o sentimento de Peter e Elizabeth por nossa sobrinha. Mas é nossa. O sangue precisa ser respeitado.

            Quando Talles finalmente chegou, aparentava estar um pouco alcoolizado, o que não poderia ser mais perfeito. Quem daria Sophia para um homem assim? E, ao falar, ele destruiu o discurso de Patrícia.

            - Sophia nem tem o sangue dessa mulher. Ela não sabe do que está falando. – Gritou.
            - Talles! Não, meu amor.
            - Não sou seu amor, sua vagabunda! Você só casou comigo pelo dinheiro dessa menina!

            Nesse ponto, Mozz, Neal e Rachel já comemoravam. Não havia chance de Ell e Peter perderem sua filha. E quando os ânimos se acalmaram e a juíza falou, foi apenas para confirmar.

            - A menor Sophia Burke deve continuar no lar onde está. E sua herança seguir sob os cuidados dos pais adotivos até que complete 18 anos. Sendo assim, declaro encerrada essa sessão.

            - Isso é injusto! Injusto! Injusto! – Patrícia bradava na saída.

            Mas ninguém estava interessado em ouvir. Elizabeth e Peter comemoraram num longo abraço. Sua família estava segura.


           
            Rachel tratou de beijar Neal e mostrar, esfregar na cara de Patrícia, que tudo não passou de uma encenação. Rachel e Neal riram ao ver o desespero de Patrícia.

            - Adeus, Patrícia. Vou sair com meu homem! Boa sorte na sua próxima armação!
            - A culpa foi sua! – Patrícia acusou-a.
            - Eu disse para não confiar Patrícia, eu avisei. Adeus, querida.

             E Mozz foi comemorar com alguém que fez parte de tudo aquilo. Olívia foi perfeita. E, mesmo tendo a enganado um pouquinho, não se importaria de continuarem a se ver. A assistente social também parecia bem interessada.


           
            - Querido, Mozz! Tudo acabou bem! – Ela disse lhe acariciando o rosto.
            - Sim, graças a sua ajuda. Obrigada, Olívia!
            - Fico feliz em poder ajudar.
            - É...e para comemorar...se você quiser...poderíamos jantar juntos...se não nenhum incômodo e...
            - Aceito, eu aceito. – Ela estava encantada por Mozz.


            Neal e Rachel, Peter e Ell também poderiam escolher esse tipo de comemoração romântica, mas optaram por algo mais familiar. No final da tarde, todos foram ao parque. Foi a oportunidade de integrar o sobrinho de Henrique às outras crianças. Sara não apareceu no passeio em família.

            - Ela tem uma tendência a ser insuportável, não ligue, Henrique. – Rachel disse.
            - Eles são namorados, Rachel. – Neal lembrou à esposa.
            - O que não a torna menos insuportável. – Ela respondeu.

            Nicolas e George gostaram muito um do outro e correram pelo gramado. Contavam, também, com a parceria de Daniel. Henry trouxe o filho para participar das brincadeiras. Para completar o grupo e ainda ficar de olho em Melissa, Rachel telefonou para ela e convidou, dizendo para trazer sua filha, Chiara e a mãe, Brígida. Quando viu a menina ruivinha, George não desgrudou mais dela.

            - É de família! – Neal brincou. – Os Caffrey são vidrados em ruivas.
            - Bobo! Ficaram amiguinhos.
            - É. Vamos deixar as crianças brincar. Enquanto eu beijo a minha ruiva.



            Distraidamente, Rachel ficou de olho em Melissa. Ainda tinha dúvidas das razões daquela mulher ter entrado em sua vida. Mesmo assim, sentia simpatia por ela. Desconfiava de Melissa, mas não a temia. E adorou ver que Chiara e George gostaram um do outro.

            - Parece que, pelas crianças, nós ainda nos veremos muito, Melissa.



           
            - Sim, Chiara e George gostaram um do outro. – A advogada respondeu. – E eu gostei muito de você ter nos convidado. Chiara e mamãe também.
            - É, sua mãe gosta das crianças. – Rachel percebeu como ela afagou Helen e agora brincava com Chiara e George.
            - Sim, ela gosta. E Henry também. Ele me parece um homem muito bom, agradável e ótimo pai.
            - Mais do que isso, Melissa. Henry é o amigo mais leal que eu já tive. É o irmão que eu não tive, já que sou filha única. Cuide bem dele. Sei que vocês saíram por esses dias.
            - Nós não estamos namorando, Rachel. – Melissa pareceu nervosa. – Ainda não, pelo menos.
            - É, ainda. – Foi a resposta de Rachel.

            Quando Diana chegou ao parque trazendo Teddy, a alegria das crianças ficou completa. Eram um grupo grande e animado. Só Valentina e Helen ainda ficavam mais quietinhas, junto dos pais. Os demais não paravam de correr para todos os lados. Helen, aliás, não queria sair dos braços de seu pai.



            - Papa! – Helen já balbuciava.

            Aproveitando-se da distração de Rachel e Neal com a filha pequena, Diana chamou Peter para lhe dar um recado. Havia saído o relatório da tornozeleira de Rachel.

            - Apenas um local não vinculado aos seus casos ou a Patrícia Harris. Um antigo prédio. Ela foi muito lá recentemente.
            - Ótimo, Diana. Eu vou checar. Obrigado.



            Nos dias que seguiram, Peter fez exatamente isso. Só o fato de Rachel andar onde não deveria, seria motivo para devolvê-la à cadeia. Mas ele não a denunciaria. Afinal, além da relação de amizade, ela acabara de lhe ajudar muito em algo completamente pessoal. Por isso, ele mesmo iria checar o que ela estava aprontando antes que sua agente cometesse alguma loucura que a mandasse para a cadeia mesmo, sem que ninguém pudesse protegê-la.
            Só que olhando o prédio em questão, não via nada de diferente. Velho, com uns nove andares, era só mais um prédio antigo de NY, com suas velhas escadas de emergência pendendo das janelas e uma antiga livraria e café na loja térrea. Porque então, Rachel vinha observando aquele lugar há semanas? Os registros da tornozeleira lhe diziam que ela dava voltas na quadra, às vezes entrava, outras ficava no comércio do outro lado da rua. Mas sempre vinha.
            Pois naquele dia, ele fez exatamente isso. Sentou-se no café e ficou esperando até ver a ruiva se aproximar.

            - Oi, Rachel! Que bom vê-la por aqui!
            - Peter! – Com essa ela não contava.
            - O que há nesse prédio, Rachel?
            - Nada eu...
            - Sem mentiras, Rachel. Os registros da sua tornozeleira são claros. E é muito bom que você tenha uma explicação para isso. Ou eu posso pensar que você quer roubar algo daqui.

            Não estava nos planos incluir o FBI nessa questão. Mas não podia deixar Peter pensando que ela pretendia roubar o prédio. Até porque, ali, dificilmente teria algo de valor, além do seu diamante, se fosse esse o caso. O fato é que teve de abrir o jogo para Peter.

            - Eu preciso olhar a sala 709. E verificar se há ali alguma pista. Mas a portaria sempre diz que o proprietário não se encontra. Meu plano era entrar escondido. Por isso venho observar o lugar.
            - Ver a melhor hora, observar as câmeras de segurança, rotas de fuga. Sim, conheço o modo operante de vocês. – Peter não gostou nada daquilo. Ela queria sim roubar. – Essa pedra não é sua, Rachel.
            - Pois eu digo que é.
            - A lei diz que não. – Peter argumentou.
            - Meu pai morreu procurando essa pedra. Eu vou descobrir onde ela está! Você pode me ajudar a olhar o lugar. Legalmente. O seu distintivo pode abrir aquela porta, Peter.
            - Eu não posso usar o distintivo assim!
            - Você me deve isso. Eu o ajudei com Sophia. – Na visão de Rachel, era justo.
            - Está bem. Mas você não irá roubar nada que estiver lá. Entendeu, Rachel? Se pegar algo, prendo você.

            Não foi difícil para Peter exigir que a portaria fornecesse a chave da sala 709. Houve reclamações, é claro, mas ninguém questionava um pedido policial. Se o proprietário questionasse e seus superiores reclamassem, teria de colocar em um relatório que houve uma denúncia de contrabando escondido ali e nada fora encontrado. Certo não era, mas, Peter lembrou à sua consciência, se não fizesse isso, Rachel e seus amigos entrariam de outro modo. Assim, ainda continuava mantendo um pouco da ordem.
            Foram acompanhados pelo porteiro, o mesmo com quem Rachel falou semanas antes. Ele não parecia nada feliz, mas abriu a porta. Logo na entrada uma coisa chamou a atenção de Peter. A janela aberta.

            - O proprietário esteve aqui há pouco?
            - Não. Ninguém esteve aqui a semana toda.
            - Isso é mentira. – Peter respondeu. E explicou. – Houve chuva com vento essa noite. Se essa janela estivesse aberta, a sala estaria revirada e úmida. Alguém abriu essa janela agora pela manhã.
            - Ninguém que passou pela portaria veio para essa sala, Senhor. – O homem repetiu.

            Era um escritório comum. Mesa, cadeira, luminária e arquivos. Dois ou três quadros de gosto duvidoso nas paredes. Algumas pastas vazias sobre a mesa. Rachel ficou olhando o lugar louca para procurar um cofre escondido, mas na frente de Peter isso era péssima ideia. Então simplesmente abriu uma gaveta do arquivo em alumínio e tirou caixas para verificar a papelada.

            - Ei! Você não pode mexer aí! – O homem gritou.
            - É você quem vai me impedir? – Ela respondeu.

            Mas logo não estava mais sequer ouvindo o homem. Ficou perdida no que via naquela caixa. Rachel ficou pálida. Peter percebeu a mudança no clima e correu para junto dela. Sua agente nunca havia ficado assim, sem reação. Quando olhou dentro da casa, Peter viu documentos e algumas fotos de um homem.



            Um homem que ele não reconhecia. Não lhe dizia nada. Mas que fez Rachel perder o chão. Pele clara e enrugara, barba e cabelos brancos. Olhos azuis muito claros. Ele vestia uma camisa escura e parecia forte, mesmo com a idade já avançada.

            - Quem é esse homem, Rachel? Porque você ficou assim?
            - John. – Rachel respondeu. – Meu pai. Esse foi o homem que me criou, Peter. Que me treinou. Que me transformou no que eu sou.

            Havia dor nos olhos dela. E Peter lembrou-se em como Rachel sempre defendeu seu pai, mesmo quando o acusavam de tê-la usado. Ela o amava e o defendia pelas crueldades cometidas no intuito de usá-la na busca daquele diamante.

            - Então quem usa essa sala, seja quem for, investigou o seu pai adotivo. Talvez investigue você também. Se acalme. Nós vamos descobrir.
            - Não Peter, você não entendeu. Esse homem na foto é o meu pai...envelhecido. Não o homem que Harabo diz ter matado naquela explosão. Esse homem é o meu pai hoje! John não morreu! Ele está vivo...ou esteve até pouco tempo. Ele não morreu há uma década, como eu acreditava.


            Os tiros que ouviram impediram Peter de raciocinar sobre o que Rachel acabara de afirmar. 

sábado, 30 de maio de 2015

Dicas de leitura: Garota Exemplar


             Eu esqueço! E por isso peço desculpas. Não é que eu não leia, aliás, nunca li tanto na minha vida quanto atualmente. Levo aproximadamente 1h20 min no ônibus até meu trabalho e cada um desses minutinhos são aproveitados (nunca gastos) em livros. Só que com meus próprios devaneios para escrever e lindas leitoras ansiosas, esqueço de postar aqui! Porém, essa semana terminei um livro que entrou para a categoria dos TOP. E eu não podia deixar de contar para vocês.
            Garota Exemplar, de Gillian Flynn. Um suspense policial nada típico e que faz uma análise da vida em casal e de como ela é difícil. É possível ser amada? Ser perfeita? Ser exemplar? Ou é necessário fingir? Até que ponto ser exemplar é saudável?
            Sim, eu sei que talvez muitas já tenham lido. Sim, eu sei que tem filme. Sim, eu sei que o final do filme não agradou muita gente. Mas a verdade é que o livro me prendeu do início ao fim. E, lá pela metade eu queria alongar ainda mais a viagem até o trabalho só para ler mais algumas páginas do conturbado casamento de Nick Dunne e Emy Dunne.
            Eu não quero, não devo e não posso dar dicas sobre o que ocorre no livro, mas digo que ele se inicia no dia em que Emy e Nick, um casal praticamente perfeito, comemoram cinco anos de casados. Porém, Emy desaparece e começam a aparecer indícios de que Nick não é tão perfeito e pode ter matado a esposa. Mas será que é mesmo isso?

Bjss

            Para quem prefere o filme, segue o link:


sábado, 23 de maio de 2015

Alguém Para Amar - capítulo 7


            Certos hábitos adquiridos há quase 40 anos são difíceis de mudar. Definitivamente, Emily não estava habituada a ter alguém ao seu redor perguntando como se sentia a cada meia hora. Era bom, era afetivo, mas também podia ser um pouco chato. Na quinta vez que Jonas interrompeu sua leitura para checar se ela estava com alguma dor, ela achou que era hora de acabar com aquilo.

            - Jonas, eu sei me cuidar. Fiz isso sozinha nas últimas quatro décadas. Não precisa me tratar feito criança. – Ela argumentou.
            - Estou treinando para quando tiver uma criança por aqui. – Ele brincou. – Além disso, você ainda não tem 40 anos.
            - Estou me aproximando a cada dia.
            - O tempo te fez bem. Você é como o vinho Emily. E nisso eu sou um especialista.
            - Não vou questionar então. E por falar em vinho, você podia abrir uma garrafa enquanto eu preparo algo para a gente comer. Se você não se importar de eu usar a sua cozinha.
            - Não prefere pedir algo? Você deveria fazer repouso.
            - Estou ótima! E amo cozinhar. E, antes que você pergunte, um pouquinho de vinho não me fará mal.

            Jonas não questionou, mas abriu a garrafa com menor teor alcoólico de que dispunha naquele momento. Depois ficou observando-a mexer em seus armários e geladeira como se procurasse um tesouro. Seus olhos brilhavam já imaginando a receita que faria. Ele só imaginava aquele tipo de animação feminina ao entrar em um shopping center. Emily realmente amava sua profissão.

            - Fiz comprar mais cedo. Mesmo assim acho difícil que tenha a variedade de ingredientes a qual está habituada.
            - Está ótimo. Farei legumes com molho oriental.
            - Posso ajudar?
            - Você sabe cozinhar? – Essa pegou Emily de surpresa. Realmente não conhecia o homem com o qual se relacionou nos últimos anos.
            - Um pouco. Eu vivo sozinho e nem sempre quero comer fora. Além disso, você viu o apresso que minha família tem por uma mesa farta.
            - Então vamos cortar os legumes.



            A comida demorou muito mais do que o necessário para ficar pronta. Não por culpa de Jonas. Ele realmente sabia cozinhar. Mas a preparação do alimento foi interrompida muitas vezes porque ambos estavam próximos demais na pequena cozinha. E, juntos, em meio ao aroma do vinho e o calor do fogão, não resistiam a trocar alguns beijos.

            - Eu queria muito fazer amor com você essa noite, mas eu não posso. – Emily enquanto comiam no balcão da cozinha.
            - É, não pode. O que não nos impedirá de aproveitar tudo o que você pode. – Ele tinha um olhar safado.
            - O que tem em mente?
            - Vamos para o quarto e eu te mostro.

            Aquela foi a primeira noite em que dormiu no quarto dele, na cama dele, nos lençóis que tinham o seu cheiro. E foi bom. Mesmo não podendo transar. Isso era realmente estranho para eles. Só que aquela, contraditoriamente, foi a noite em que mais se sentiu amada. O carinho com o qual foi despida, beijada e massageada lhe deram tanto prazer quanto uma noite de sexo voraz. E no fim, pode acomodar-se sobre o peito de Jonas e dormir, tranquila e aquecida, reconhecendo que era mesmo muito bom ter um parceiro para além de sexo.
            Quando o dia clareou, foi acordada por Jonas se barbeando no banheiro do quarto. Elas perguntou-se o que deveria fazer e optou por vestir uma de suas camisas e ir até a cozinha para ligar a cafeteira. O cheiro do café instalou-se no apartamento e logo Jonas apareceu na sala, ainda de cueca e camiseta. Ele havia desistido de se arrumar com a pressa de sempre.

- Bom dia. Desculpe acordar você. – Desse um segundo antes de abraçá-la e beijá-la.

            Beijos matinais eram outra vantagem de quem não expulsava o parceiro no meio da noite, como ela costumava fazer. Com o hálito fresco e a perfume da loção pós barba, Jonas estava definitivamente tentador. E, o melhor, ele parecia ignorar seu cabelo bagunçado pela noite de sono e a pele sem nenhuma maquiagem.

            - Assim vou acabar viciada em você. – Ela disse.
            - Droga! Você descobriu meu plano.

            O único desentendimento da manhã se deu pelos compromissos profissionais dos dois. Jonas achava perfeitamente normal avisar que teria o dia cheio de reuniões na construtora, não viria almoçar com ela e chegaria por volta das 20hs em casa. E esperava que ela ficasse o dia todo sem fazer nada. Emily o olhou como se visse um extraterrestre no meio da terra.

            - Essa não sou eu, Jonas! Não posso simplesmente ficar em casa lixando as unhas. Vá para os seus compromissos. Eu vou para o meu restaurante. Minha equipe precisa de mim.
            - Você está de repouso. – Ele lembrou-a enquanto vestia o terno.
            - Eu conheço os limites do meu corpo. Não irei além deles.
            - Está bem! Te vejo em casa às 8hs da noite?
            - O restaurante fecha às 23hs.
            - Você não precisa ficar até o final. – Ele não queria ficar em casa sozinho. Não mais. – Por favor.
            - Está bem. Às 20hs, no máximo 21hs, estarei aqui.
            - Ótimo! Além do mais, a Milla sentiria sua falta. – Ele brincou referindo-se a boneca que Emily colocou na mala quando passaram em seu apartamento.
            - Você achou ridículo, eu sei. Mas eu não consigo me desfazer dela. Eu a tenho desde muito pequena.
            - Não achei ridículo. É uma lembrança bonita da sua infância. Eu tenho a minha coleção de carrinhos de quando eu e Lorenzo éramos pequenos. Está lá na fazenda. Quando voltarmos eu te mostro. – Ele lhe deu mais um beijo e acariciou seu rosto antes de sair. – Tenha um bom dia. É só bater a porta quando sair. Vou fazer cópias das chaves pra você.
            - Está bem. Bom dia pra você também. – Emily respondeu e saiu em disparada para se vestir e chegar cedo no restaurante. Estava feliz.

            E essa felicidade foi percebida no restaurante. Sua equipe recebeu-a com sorrisos, mesmo não sabendo que fora um problema de saúde afastá-la do trabalho. Pensavam que ela havia estendido os passeios por Paris. Menos Márcio. Ele soube de tudo, mas, como já lhe era habitual, manteve-se leal.

            - Vejo que não só melhorou como está explodindo de felicidade. Sua pele, seus cabelos e seus olhos vibram, minha bela! – Ele disse euforicamente. – Devo presumir que nosso belo e gentil Jonas Vicentin é o responsável por tudo isso?
            - Sim. Você deve presumir. E mais!
            - Mais? Diga, diga, diga!



            - Agora eu sou a namorada de Jonas e, você não vai acreditar, ele topou ser o pai do meu bebê!
            - É claro que eu acredito! Jonas é um homem de classe, elegância e bom gosto! Não jogaria fora uma mulher como você. São perfeitos juntos. Quero ser padrinho do casamento.
            - Não exagere, Márcio. Namorados.
            - Ok, ok...eu não tenho pressa para comprar o fraque e me pôr no altar junto de vocês. Deixemos o tempo fazer o seu trabalho.

            O tempo era realmente algo decisivo na vida. Ele fazia tudo mudar. Mesmo o que continuava exatamente igual. Isso porque o olhar das pessoas ia mudando a percepção de cada um pelo igual. Um mês se passou. E Emily percebeu que já não mais sentia-se nervosa ao atender o telefone da casa de Jonas. Não ficava ansiosa por estar sozinha por lá. Não ansiava pela chegada dele por outras razões que não saudade. A vida encontrou uma deliciosa rotina entre dormir e acordar nos braços dele.
            Foi um mês muito bom. Trabalhou todos os dias no restaurante, que seguia com bom público e agora contava com novos pratos no cardápio. A felicidade trouxe mais ânimo à Emily. Ela passava várias horas cozinhando e não sentia o carpo reclamar. Quando foi possível, ela e Jonas voltaram a transar e era tão bom quanto antes. Com a diferença de que, agora, a noite continuava mesmo após os corpos pedirem descanso. E sentia em Jonas a mesma felicidade. Ela sentia isso.
            Jonas estava, na verdade, mais do que feliz. Estava realizado. Se soubesse que ter Emily em sua cama todas as noites e em sua vida todos os dias era tão bom, já teria assumido o namoro com ela há muito mais tempo. Ela o compreendia muito bem e não interferia na sua rotina. Emily não ligava várias vezes durante o dia, nem reclamava da sua carga de trabalho. Na verdade, ela era extremamente independente. E vivia intensamente seu crescimento profissional. Ele orgulhava-se dela. Muito. E desejava estar ao lado dela por muito tempo. A não ser quando a via sofrer.
            Driblando os compromissos profissionais, esteve com Emily numa consulta médica. Leonor examinou-a em particular, mas ele participou da conversa entre médica e paciente. Era justo, afinal, ele tinha importante papel naquele tratamento. A orientação da médica era seguir confiante no tratamento porque o caminho ainda era longo. Emily fez uma nova ultrassonografia e ela apontou que ainda não era indicado engravidar. O útero não estava recuperado da raspagem.

            - Minhas cólicas estão voltando. Acho que não tivemos o resultado esperado. – Ela disse à médica.
            - Você não me contou isso. – Havia um pouco de mágoa na contestação de Jonas à frente da médica.
            - Eu...achei que não precisava falar. Você não ia poder fazer nada mesmo.

            Jonas não disse nada mais nem durante a consulta ou ao chegar em casa. Mas ficou chateado. Emily não conseguia se abrir por completo. Ele não sabia muito bem como conviver com isso, mas imaginou que pressioná-la só pioraria tudo. Então não a recriminou, mas ficou atento a ela. Se suas dores estavam voltando, Emily precisaria de cuidados.
            Alguns dias depois da consulta médica, ele teve uma rotina de trabalho particularmente pesada. Tudo porque, ao ganhar uma licitação, a construtora precisou intensificar os trabalhos. Ele vistoriou dos canteiros de obras e até seu almoço fora durante uma reunião de negócios. Um dia realmente exaustivo. Como já era de costume, Emily não telefonou durante todo o dia. Mas confirmou que deveria chegar em casa antes das 22hs.
            Ele a conhecia bem. E mesmo sem ela lhe dizer uma palavra, quando, ao chegar em casa, Emily recusou uma taça de vinho e preparou uma xícara de chá, percebeu que havia algo de errado. Discretamente, observou quando ela engoliu algumas cápsulas na nécessaire e engoliu.



            - Analgésicos?
            - Sim. – Ela estava constrangida. – Não é uma fase boa do mês para mim. Eu não estou acostumada a ter ninguém perto de mim nesse momento. Eu fico um pouco anti-social. Me ignore. Está bem assim?
            - Eu não posso ignorar que você não está bem, Emily.
            - Tem razão. Eu acho que eu vou voltar ao meu apartamento. É melhor. Não te incomodo nem fico constrangida. Em alguns dias estarei bem e a gente volta a se falar.
            - Você só pode estar brincando! Nem pensar! Isso não é uma brincadeira de casinha, Emily. Quando o bebê estiver doente nós também vamos resolver as coisas assim? Ignorando?
            - Não! Claro que não. – Ela não sabia o que dizer. Mas tê-lo ali, precisando disfarçar a dor que sentia era insuportável. – Eu vou me deitar. Com licença.

            Jonas deixou-a sozinha. Entendia que ela precisava de privacidade. E quando finalmente entrou no quarto e acendeu as luzes, percebeu que ela estava em sono pesado, provavelmente causado pelos fortes remédios. Então deitou-se sem fazer nenhum barulho na intenção de deixá-la repousar. Ele dormiu bem, até ser acordado às 3hs40min. Não foi nenhum barulho a acordá-lo, nem luzes no quarto. Seu corpo pareceu perceber os lençóis esfriarem e quando se deu conta estava de pé, procurando por Emily. Viu que ela estava no banheiro e bateu à porta.

            - Eu já vou voltar, Jonas. – Ela lhe respondeu.

            Mas quando finalmente a viu novamente, percebeu que ela tinha os olhos nublados pelos remédios e o corpo um pouco curvado para frente.  Ele sabia qual o problema, mas esperou que ela lhe dissesse. Esperou em vão. Emily deitou-se evitando tocá-lo e não disse nenhuma palavra. Lhe deu às costas e enrolou o corpo, mantendo vários centímetros separando-os. Passaram alguns minutos e ele, pelo ritmo da respiração, soube que ela seguia acordada. Não podia, nem conseguiria dormir daquela forma.
            Levantou-se e ignorou o resmungo de Emily. Ela disse algo sobre estar bem e não necessitar de cuidados. Uma mentira deslavada. Na cozinha, preparou uma bolsa de água quente e levou para o quarto.

            - Coloque na frente da barriga. – Lhe disse enquanto deitava-se às suas costas e puxava-a, unindo seus corpos. – Assim, mais aquecida você vai se sentir melhor.
            - Eu já tomei remédio. Você não precisa se preocupar.
            - Claro que preciso. Não posso simplesmente ignorar o seu problema, Emily. É impossível vê-la sofrer e não fazer nada. Então me deixe ajudá-la.

            Emily aceitou o carinho e o cuidado de Jonas. Não soube direito se foi fala doce dele em seu ouvida, a bolsa de água quente ou os remédios, mas sua cólica aliviou aos poucos e ela dormiu tranquila.
            Na manhã seguinte ainda sentia os desconfortos aos quais já estava habituada. Tinha certeza de que, com algum esforço, poderia ir trabalhar. Jonas não concordou e resolveu que também tiraria folga naquele dia. Os dois aproveitaram para descansar, ver um filme, almoçar juntos e namorar. Foi um dia quase perfeito em que ela chegou muito perto de esquecer da dor.
            Em casa, Jonas não fazia ideia de que seu irmão entrava na JRJ Construções à sua procura. Aquele ambiente muito claro, frio e iluminado definitivamente não combinava com Lorenzo. Ele se apresentou na recepção e foi entrando. A secretária lhe disse que tentariam localizar Jonas. Mas, enquanto isso, pediu que esperasse em sua sala.
            Lorenzo ficou lá, pensando, perguntando-se como seu irmão conseguia trabalhar ali por tanto tempo. Era bonito. Era agradável. Mas não era o lugar deles. Estava explicado porque Jonas corria para a fazenda que tinha uns dias de folga.
            A porta se abriu e ele viu uma jovem, muito jovem, entrar carregando uma bandeja. Com os cabelos muito claros e traços de menina, era difícil pensar que trabalhasse, mas o uniforme informava isso.



            - O senhor aceita um café? – Ela disse com uma voz muito fina e delicada.
            - Sim, eu aceito. Mas pode me chamar de Lorenzo.

            Ela sorriu um tanto tímida e ele se sentiu um idiota por corrigi-la. Que diferença fazia a forma como ela o chamava quando essa seria a única vez que se veriam.

            - A secretária do Sr. Jonas está tentando localizá-lo, mas ele não atendeu ao celular. Assim que conseguirmos, ela lhe avisa.
            - Você sempre chama a todos de senhor e senhora? – Ele não resistiu a provocá-la e ver-lhe ficar ruborizá-la mais uma vez.
            - Ele é um dos diretores. Preciso tratá-lo com respeito.
            - Claro, claro. E como é o seu nome?
            - Jéssica.
            - Então...seu café está ótimo, Jéssica. Mas eu acho que vou ao apartamento de Jonas. Estou com palpite que ele está em casa. Adeus, Jéssica.

            - Adeus, Senhor Lorenzo.