sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Diaba Ruiva: Passado Revelado - Cap 9


Quando começou a despertar, Rachel ainda sentia o corpo cansado e a mente confusa. Cadeia, fuga, hospital, parto, Neal atrasado e...Helen, finalmente Helen em seus braços. A menina havia nascido. Lembrava-se de vê-la. Linda, pequena e tão frágil. Podia ainda sentir seu cheiro no ar. Mas onde ela estava? Piscando para clarear a visão, procurou por sua filha e seu marido. Não estavam ali. Rachel tentou erguer-se na cama e alcançar o botão para chamar a enfermeira.

- Ei, ei, ei! Calma. – Ouviu a voz de Neal vir das suas costas, suave, quase num sussurro. – Mamãe acordou ansiosa, filha. É para te conhecer.

Impossível não sentir as lágrimas novamente verterem de seus olhos. Ela estava ali. Tranquila, ressonando no colo do pai. Ele estava ali. Orgulhoso de carregar a filha nos braços. Tudo pareceu tão lindo naquele momento.

- Eu quero pegá-la. Me dê. – Disse estendendo os braços para receber o pacotinho de pele macia e bochechas rosadas. – Como ela está?



- Perfeita. – Neal sorria ao olhar para mãe e filha. – Tem 3 quilos 870 gramas e 48 centímetros. Uma grande bebê.
- Sim, isso explica o tamanho da minha barriga. – Rachel tocava a filha e conferia cada detalhe. Parecia perfeita demais. – Ela é linda.
- É. Helen puxou a beleza da mãe.

Ela não se sentia nada bela naquele momento, poucas horas depois de dar a luz, sentindo a barriga inchada e os pontos da cesariana arder. Poucas vezes sentiu-se tão exausta. Nem mesmo quando seu a luz George e logo depois encarou um fuga internacional. Helen realmente lhe deu trabalho para vir ao mundo. Mas quem liga? Tudo era válido para vê-la ali, bem, sadia, forte e com uma vida inteira para aproveitar. Mesmo que...que ela fosse ver tudo de longe, de uma cela fria e sem vida.
Quase sem perceber, o choro de alegria pela chegada de Helen tornou-se de tristeza, quase desespero. A infância de George estava passando e Helen mal teria chance de se acostumar com ela antes de ser retirada de seus braços. Quando uma de suas lágrimas caiu sobre a bochecha da filha, Neal percebeu sua mudança de humor.
- Helen herdou o seu gênio também. Se você não lhe der de mamar nos próximos minutos e parar de chorar, logo estará soluçando também.
- Não. Mamãe não deixa ficar com fome – Ela ofereceu o peito e Helen primeiro cheirou e tateou por alguns minutos, reconhecendo a mãe. Quando finalmente abocanhou-o para receber o alimento, sugou forte.  – Vamos ter de nos organizar para eu tirar o leite no presídio e levarem para ela. Quantos dias me deixarão aqui com ela? Eu posso fingir algo. É, é isso! Falarei com Laura. Vamos fingir uma infecção. Assim eu fico com ela aqui mais uns dias e....



- Calma Rachel. Nada disso é necessário.
- Mas eu não quero ficar longe dela ainda. É minha! E tão novinha!
- E não vai ficar. Se tudo der certo, amanhã você ganha a sua alforria...mesmo mantendo uma tornozeleira.



Sob um olhar que misturava descrença e esperança, Neal contou os últimos acontecimentos. E não eram poucos. Nem simples. Passo a passo, o perfil de Thomas Carter e seus atentados, a investigação promovida pela Interpol, o embaixador inglês e sua estranha exigência foram apresentados para Rachel.

- Espera! – Rachel não estava engolindo aquela história. – Esse Nohan simplesmente ‘me quer’? Assim? Sem motivo?
- Obviamente ele tem algum motivo escuso, mas falou apenas no seu currículo profissional. E tinha um arquivo da sua vida, Rachel. Não sei se é completo, mas, mesmo assim, não é só pela sua longa história com MI5 e FBI, com agente ou foragida, que eles desejam você. Nohan esconde alguma coisa. Mas na verdade, essa é a nossa melhor, talvez a única, chance de te colocar de volta na rua.
- É, Neal, tem mais nessa história. – Mas o peso de Helen em seus braços lhe dava força para ir em frente. – Nós nunca fomos do tipo de temer o desconhecido, Neal. Seja qual for a desse Nohan, não vamos desperdiçar essa chance. Comigo na rua, fica mais fácil fugirmos, se for preciso. Vamos esperar a sentença do juiz e depois vou investigar esse Nohan. Ele tem um arquivo meu...vamos montar um sobre ele, em detalhes.

Neal sorriu observando-a planejar. A Diaba Ruiva estava de volta.

- Mas calma, não esqueça de que você acaba de dar a luz. Tem de se cuidar e dar atenção à Helen e George.
- Prevejo dias agitados, Neal. Muito agitados.
- Então durma, Rachel. É hora de Helen voltar para o berçário. Eu vou em casa rapidinho trocar de roupa e pegar George. Quando você acordar novamente, terá seus dois filhos aqui e um monte de visitas.

Nada era tão simples assim na vida deles. Neal foi para sua casa, mas com a cabeça nas inúmeras coisas que tinha para resolver. Era impossível conseguir fazer tudo e estar na manhã seguinte no hospital. Então Mozz entrou em ação. Logo depois conseguirem acalmar a ansiedade de George em conhecer a irmã e fazê-lo dormir, eles foram conversar. Começaram com uma velha tradição.




- Charutos? – Neal surpreendeu-se. – Eu nem fumo, Mozz.
- É a tradição. O pai comemora a chegada do herdeiro com legítimos charutos.
- Obrigada Mozz. Vamos ver se eles nos inspiram então. Preciso da sua ajuda. Mais uma vez.
- Minha vida seria muito mais sem graça sem os seus problemas, Neal. Pode falar. Do que você precisa?
- Para começar?Que você feche a compra daquela casa. De preferência amanhã mesmo. Eu liquidei alguns...bens. Tem grana suficiente naquela conta. Acho que não precisará usar dinheiro da Rachel.
- É uma casa bem localizada...deve ter vendido um bem dos valiosos.
- Somente algumas reservas dos nossos bons tempos. Mas o Peter não faz ideia. Então você colocará essa casa no seu nome. Ele não faz ideia.
- Está bem. Mas não é essa a grande missão pela qual há essa ruga na sua testa no dia em que Helen nos brindou com sua chegada ao mundo.

Neal colocou a par de Nohan e sua misteriosa aparição. Deu ao amigo todos os detalhes. Mais do que contou à Rachel. Não pretendia estressá-la naquele momento. Ela tinha de curtir Helen, dedicar-se a ela. E não com um maluco que iria estragar isso.

- Missão entendida, Neal! Dos males o menor! Diaba e diabinha vão sair do hospital direto para casa. E vamos descobrir os segredos desse Nohan.
- Será mesmo? E se o parecer da juíza for negativo?
- Não será! Eles não vão arriscar um atentado. Sua mulher amanhã será livre.



Foi crente nessa possibilidade que Rachel adormeceu após entregar Helen aos enfermeiros. Isso depois da pediatra vir lhe garantir a saúde de sua filha e afirmar que ela seria bem cuidada. Depois dormiu tranquila. E acordou num quarto silencioso e perfumado por uma imensa cesta de flores colocada numa mesa à direita do cômodo.

- Neal já esteve aqui! – Ela derreteu-se. – Deve estar com Helen.

Mas foi a enfermeira a entrar alguns minutos depois, carregando a menina em prantos. Helen tinha fome e não estava interessada em esperar. Geniosa, Helen já mostrava sua personalidade. E todo seu amor e ligação com a mãe. Nos braços de Rachel, ela se acalmou.

- Ora, ora meu amor. Tudo isso é fome ou é saudade da mamãe? Depois de tantos meses juntas é difícil mesmo ficar longe, não é? Vem....vamos mamar.



- Ela tem personalidade. – A enfermeira lhe disse. – Parabéns. A senhora ganhou uma linda filha.
- Obrigada. Linda e geniosa. Exatamente como eu desejava. Forte para enfrentar o mundo...e deixá-lo com a sua marca. Minha Helen.
- Assim que ela mamar e a senhora se ajeitar, têm visitas aguardando para entrar.
- É meu marido! Ele já esteve aqui e deixou as flores. Mande-o entrar!
- Não. Amigos seus estão aí fora. O seu marido eu não vi hoje, ainda.

Rachel estranhou, mas não questionou. Logo ele deveria aparecer. Com George. E seus filhos iriam se conhecer. Quando terminou de amamentar, Helen foi colocada em um pequeno berço ao lado de seu leito e após rápidos cuidados com o visual, ela recebeu as visitas. Primeiro Peter e Ell.

- Parabéns, Rachel. Onde está o Neal? – Peter estranhou  a ausência do amigo. – Jurei que ele não arredaria o pé daqui.
- Ele esteve, deixou essas flores. E sumiu!
- Eu vou ligar para ele. Temos uma decisão importante hoje. Ele te falou?
- Sim, Peter. Estou nervosa com isso.
- Chega, Peter! Não é hora de falar nisso. Veja como Helen é linda. – Elizabeth estava encantada e já com saudade do nascimento de Valentina. – Será ruiva como você.
- Sim, será. Minha Helen.

Depois Rachel recebeu Diana, numa passada rápida antes de seguir para outro compromisso. Nicolle chegou exigindo dar colo à neta. E as duas se acertaram muito bem. Helen adorou os braços de sua avó.

- Vovó vai brincar com você, dar papinha, te levar no parque. Tudo, tudo, tudo o que você desejar, meu amor.

Mozzie também apareceu logo cedo. E exigiu tomar a ‘Diabinha’ da avó. Disse que tinha seus direitos.

- Acostume-se ‘pequena-Rachel’. Titio Mozz passará muito tempo ao seu lado e vai te ensinar coisas muito legais.

Quando Rachel já estava chateada pela demora de Neal e George, a chegada de mais amigos distraiu-a. Henry encantou-se pela menina. Mãe e filha estavam ótimas.

- Fiquei sabendo que logo estará na rua. Fico feliz por você, Rachel.
- Eu estou ansiosa por isso, Henry. Muito. Quero ver a rua, passear com meus filhos, trabalhar.
- Logo.

Rachel já tinha se despedido dos amigos quando Neal chegou. Era tarde para quem disse vir pela manhã. Mas ele chegou com um sorriso tão lindo e trazendo George. Impossível reclamar.

- Oi Helen! Eu sou o seu irmão. – George tratou de se apresentar. – Ela não faz nada? Não fala? Helen! Fala comigo!
- Calma, filho. – Neal disse bagunçando os cabelos do filho. – Logo, logo ela vai estar falando com você. Não vai beijar a mamãe?
- Oi mãe! Agora você vai vir pra casa né?
- Sim, meu amor. Logo, logo mamãe estará com você, Helen e papai em casa.

Neal beijou-a nos lábios. Sentia falta daquele carinho sem grades nem guardas do presídio. Sua vida estava voltando ao normal. Mas estranhou ver seu marido com flores.

- Mais? A cesta já era tão linda, amor. Não precisa trazer mais. Eu amei seu presente.

Mas aquela cesta não era de Neal e ficou claro em seus olhos que aquele não era apenas o presente de um amigo. Neal aproximou-se da cesta e viu ter, além das flores, dois pequenos embrulhos e um cartão.

Leu o texto breve em voz alta:
‘Mãe e filha merecem ser agraciadas feito rainha e princesa no dia de hoje, momento tão importante em suas vidas. Parabéns pela chegada de Helen, Rachel. Estou ansioso por conhecê-la.’
Ass: Nohan.

Trêmula, Rachel ouviu as palavras e assistiu Neal abrir os presentes. Nohan era mais estranho do que imaginava. Mandar apenas flores já seria demais. Mas presentes e com aquele bilhete era como um recado. Quando viu o conteúdo dos pacotes, seu incômodo aumentou. Tratava-se de uma linda e minúscula pulseira de pérolas para Helen. E um colar trazendo mãe e filho, cercados por pedrarias e ouro envelhecido. Rachel viu no olhar de Neal a raiva do marido por aquele presente.

  


 
- Diamantes e rubis. Legítimos! – Seu olhar de especialista reconheceu a autenticidade das pedras instantaneamente. – Quem ele pensa que é para lhe enviar uma joia assim? O que esse cara quer!?!?!?


Essa dúvida também persistia na cabeça de Neal.


Nota das autoras: desculpem o cap pequeno, mas vou viajar no feriado e não quis deixá-los sem capítulo. Bjss

domingo, 25 de janeiro de 2015

Vidas Ocultas - Capítulo 15


            Elizabeth colava-se a Miguel como se precisassem do contato pele com pele para sobreviver. Ela não mais tentou descobrir com quem ele discutia ao telefone, apenas terminou de arrancar as próprias roupas e passou a abrir as dele enquanto mordia-lhe o corpo com violência.



            - Vem Miguel, atire-me nessa cama de uma vez. Fecha os olhos e finge que não sou eu. É uma vadia de rua. Me trata como na nossa primeira vez.  – Ela gritou completamente nua e tentando arrancar-lhe o cinto e descer-lhe as calças. Estava enlouquecida.   

Aquilo estava muito longe de ser o desejo de Miguel. Mas não era homem de negar-se a receber uma bela e quente mulher que se oferecia. E, tratando-se de sua noiva, ele, o único a poder vê-la assim, despida das roupas e de qualquer pudor, tinha o dever de lhe dar todo o esperado. No caso de Elizabeth, isso representava explosões violentas e sexo sem limites. Isso vinha em ótima hora para lhe permitir extravasar a raiva que sentia.

            - Noiva minha não é vadia. Você está proibida de falar isso!
           
            Elizabeth apenas sorriu frente a provocação de Miguel. Aquele fogo de desejo brilhando em seus olhos lhe agradava bem mais do que o ódio vazio de alguns minutos atrás.

            - Você não me proíbe de nada, Miguel. – Elizabeth largou-o e deu um passo atrás apenas para exibir suas curvas. – Não vai querer? Eu posso sair na rua e procurar outro.



            Isso bastou para despertar o lado mais violento de Miguel. Mas não levou-a para a cama. Seria no chão duro mesmo que pretendia tomar posse do que era seu. Abocanhou-lhe o seio e mordiscou-lhe até ouvi-la gritar.
            Elizabeth alternava gemidos e gritos. Os dentes dele arranhavam, as mãos pareciam garras, seu peso a pressionava contra o chão frio. Não eram carícias de amor. Era uma demonstração de posse. E ela aproveitou casa instante, Na parte interna de suas coxas Miguel deixou um rastro feito à base de mordidas.

            - Minha...toda minha. – Ele dizia e Elizabeth sentia-se no paraíso.

            Ela implorou para ser penetrada. Estava mais do que pronta e sentia-o duro contra sua virilha. Miguel demorou para atender-lhe o pedido. Era como uma tortura. Ela quis seduzir, agora tinha de lidar com tudo. Quando finalmente ele resolveu atendê-la, a fez ficar de pé e prensou-a contra a parede.

            - Ah!!! – Ela gritou esfregando-se contra ele e sentindo-o entrar completamente.
            - Toma! Nenhum outro vai te dar nada disso! Nenhum. Toma!

            A força utilizada por ele era desproporcional e chegou muito próximo de machucá-la de verdade. Por um momento, Elizabeth sentiu medo do ódio ardente nos olhos de seu noivo. Mas depois percebeu que Miguel fazia exatamente o pedido por ela, descarregava em seu corpo toda a raiva sentida antes dela entrar no quarto. Deixou-se então levar pela estocadas violentas que a faziam arranhar as costas contra a parede e continuou acariciando-o e esperando aquela tempestade passar.
            Quando sentiu os músculos de Miguel relaxarem após gozar, segurou-o e o fez deitar no chão mesmo. Abraçou-o e deixou-o descansar. Parecia tão doce, tão calmo. Tudo menos o leão violento e feroz de poucos minutos antes.



            Eles ficaram ali, no chão, por mais de uma hora. E podiam ter ficado mais se seus corpos não começassem a doer e reclamar de todo o abuso.

            - Não sei você, mas eu quero uma cama macia, Miguel. – Ela o acariciou calmamente enquanto ainda estava no chão. – Vem, levanta.
            - Eu machuquei você, não foi? Me desculpa, Elizabeth...eu...eu...eu não sei o que me deu e...
            - Calma. Você fez exatamente o que eu desejava. Relaxa! Agora me leva até aquela banheira maravilhosa e mima esse meu corpinho tão desgastado.

            Na banheira, Miguel sentou-se e colocou-a à sua frente, com as costas encostadas no seu peito. Prendeu-lhe os cabelos para não encostar na espuma e começou a massagear-lhe as costas. A cada dia tornava-se mais dependente daquela mulher. Não vivia mais sem ela.

            - Porque você gosta disso, Liz?
            - Disso o que? De sexo? De ser tratada como mulher e não como uma boneca frágil?
            - Porque gosta de ser tratada como se fosse uma vadia de rua? É muito estranho para uma mulher educada e maravilhosa feito você.

            Liza virou-se e encaixou-o pelas pernas, fazendo-o sentir a maciez dos seios contra os músculos fortes do peito. Ela não tinha uma resposta pronta para aquela pergunta.

            - Eu não sei. Parece mais completo assim. Os homens têm o estranho hábito de acharem que nós mulheres somos frágeis. E não somos. Eu gosto de homem, não de cavalheiro em cavalo branco.

            Ele apenas riu, observando-a desprezar tudo o que sua mãe e seu pai lhe ensinaram. Um homem deveria tratar com carinho uma mulher, jamais erguer o tom de voz ao falar com uma dama e ter com ela a mesma delicadeza necessária para tocar uma rosa. Foi assim que sempre tratou Alejandra enquanto sua esposa e era esse seu objetivo com Liz. Mas parecia necessário mudar os planos.

            - E você, Miguel? Porque traía Alejandra com putas? Sua ex é perfeita! Do que sentia falta?
            - Da liberdade...de fazer qualquer coisa, sem pudores. E de não ter de mentir. Depois era só pagar, dizer tchau e acabou. Não tinham explicações enganosas, não tinha mentira. Eu...menti muito pra Alejandra.

            - Comigo você não precisa de pudor nenhum. Eu topo todas ao seu lado, Miguel. Tudo. Sem titubear. Mas nunca minta pra mim. Seja o que for, fale. Nós resolveremos juntos. Entendeu? Se me enganar, não terá perdão.

            O aviso preocupou Miguel. Em especial por saber que Elizabeth não era mulher de ameaças vazias. Esconder algo era o mesmo que mentir? Se fosse, era bom Elizabeth jamais saber que estava prestes a pagar a um chantagista para manter-lhe a segurança e a carreira intactas. Apresar da preocupação, logo adormeceu com ela em seus braços.

            Decidida a enfrentar a realidade de ser uma Benitez, Elizabeth não fugiu no meio da madrugada ou escondeu-se de Rúbia. Ela e Miguel foram para a cama e dormiram abraçados. Pela manhã, desceram as escadas de mãos dadas. Tranquilamente, avisou à matriarca que Rebeca estava chegando para juntas trabalharem no escritório.

            - Já que não tenho alternativa. – Ter uma equipe policial dentro de sua casa era muito desagradável. – Juliana está à disposição para o que precisarem.
            - A senhora é muito gentil.

            Elizabeth ainda tinha mais de duas semanas afastada da Polícia Federal. Voltaria ao trabalho apenas após seu casamento. E a cerimônia ainda tinha vários detalhes para organizar. Só que a noiva era uma policial. E suas investigações não seriam abandonadas.

            - Liz...será que a sua empregada pode trazer um daqueles capuccinos maravilhosos?
            - Ela não é minha empregada, mas acho que pode trazer sim. Agora eu agradeceria se você se concentrasse nos nossos casos, Rebeca.

            Tom havia autorizado Rebecca a trabalhar na casa de Elizabeth durante todo aquele dia. Para todos os efeitos, a policial estava de folga, visitando a amiga e colega de trabalho. Tinham vários casos para dar andamento, alguns antigos companheiros de Liza, outros recentes aos quais sua equipe passou a controlar após seu afastamento. Os mais simples estavam com Fred e Carla, mas, alguns precisavam da experiência de Elizabeth. Somente anos de vivência com criminosos eram capazes de fazer alguém desmanchar uma quadrilha de crime organizado.
            De todos os casos, no entanto, nada tirava mais o sono de Elizabeth do que dúvida quanto a morte de Javier. Não era apenas tirar aquela desconfiança de sobre si mesma. Precisa dar a Miguel e sua família a verdade. Colocar o ponto final naquela mancha na história da BTez.

            - Nada tira da minha cabeça a desconfiança de que está tudo ligado. Rússia! É lá onde todos os caminhos terminam. Foi na capital, Moscovo, onde estouramos aquele cativeiro.
            - E resgatamos Kara e Olívia. – Rebecca lembrava-se bem de cada detalhe. Liza a fez estudar aquele caso diversas vezes depois que as testemunhas morreram misteriosamente e ela ainda acreditava ser possível terem deixado algo passar. – E foi ali que o nome BTez surgiu.
            - Sim, num rabisco esquecido em um livro caixa da espelunca. Tudo na Rússia. E aquele homem que tentava aliciar novas garotas, o Pedro Ferraz, também tinham registros no passaporte de viagens para Rússia. E o ‘dono’ de Patrícia, o tal Nikolay, também é russo. Ela contou para Matt que quando Nikolay não a quis mais, resolveu usá-la como mula no tráfico de drogas.
            - Temos de interrogá-la então? Fazer um retrato falado desse Nikolay. – Rebeca respondeu.
            - Sim. Eu cheguei a conversar com Matt sobre isso...mas ele foi relutante. Não quer expô-la a esse assunto novamente.
            - Não quero ser dura, Liza, mas ou conversamos com ela agora, de forma extra oficial, ou esperamos você ter de volta o distintivo e enviamos uma intimação.
            - Não! Eu falarei com ela.
            - Está bem. Então você desconfia de que o tal Nikolay e Javier integravam a mesma quadrilha. É isso?
            - Talvez. Porque não? Isso é uma das coisas que passou pela minha cabeça na noite em que fiquei na central analisando os casos sozinha. Eu ia seguir nessa investigação, mas aí incendiaram meu carro e depois disso tudo deu errado. Javier morreu e tudo desmoronou. Eu tenho de começar do zero.
            - E os atentados pararam depois disso. Você acredita que tentaram te apagar para não continuar mexendo nesses casos?
            - É o que parece. Todos os que tentaram desafiar essa quadrilha morreram. Primeiro Kara e Olívia. Depois Natália Villa procurou Miguel em busca de socorre e morreu logo depois. E o próprio Javier foi apagado quando resolveu entregar os parceiros. Eu sofri dois atentados e passei a ser seguida. Aquela foto minha e de minha e de Miguel, nos beijando no meio da rua, que ajudou muito a ser afastada do FBI, só pode ter sido feita por alguém que me seguia.

            Elizabeth não dividiu com Rebeca, mas ainda temia quais outros segredos seus o perseguidor poderia ter visto e até registrado. Ela demorou a dar-se conta de que era um alvo grandioso demais e nem só atentados fatais poderiam interessar.
            Elizabeth desistiu de ficar o dia tudo sob o teto de Rúbia, devolveu Rebeca para a central de polícia com a missão de ficar de olho em qualquer novidade quanto a tráfico de pessoas ou de drogas para a Rússia. Também avisou Miguel de que seria impossível almoçarem juntos e foi ao encontro de Matt e Patrícia. Por mensagem de texto marcou o encontro com seu amigo num restaurante próximo do escritório de advocacia dele.

            - Pode falar, Liz. O que era tão importante? – Quando Matheus e Patrícia se colocaram à sua frente ela pode ver que, mesmo sem assumir, eles já eram um casal. Matt se colocava junto dela, como um protetor, pronto para repelir qualquer um que a colocasse em perigo. – Porque deseja nos ver?



            - Eu preciso conversar com você, Paty. A respeito de Nikolay.
            - Liz, eu já te pedi para...
            - Para não aproximar Patrícia desse mundo. Eu sei. Mas esse mundo ainda existe. E da ajuda dela muitas garotas podem depender nesse momento para serem libertadas de homens como Nikolay. Então me permita explicar.

            Sob o silencio de seus amigos e olhares curiosos e aterrorizados, Elizabeth explicou suas desconfianças. Depois ficou aguardando Patrícia falar.

            - Eu não quero tocar nesse assunto novamente, Elizabeth. Nem tenho como te ajudar. Não sei muito de Nikolay. Ele me comprou depois de um programa e me manteve em Atenas, na Grécia, num belíssimo apartamento. Mas ele passava dois ou três dias por semana lá. Não sei se sua casa era na Grécia.
            - Eu preciso saber o que levou você a ir para Rússia. Sei que não gosta de tocar no assunto, Patrícia. Mas vai ter de falar.
            - Não vou falar coisa nenhuma! – Isso irritou Patrícia. Elizabeth parecia autoritária demais. – É pessoal. Não tem nada a ver com seus casos! Ele se desagradou de mim e não me quis mais como sua exclusiva. Me colocou na vida novamente e depois de uns dias achou que transportar drogas era a minha única serventia. Fim da história. Não sei mais nada dele. Isso basta?
            - Se for a verdade, basta. Mas vou precisar que descreva suas feições. Com um retrato falado nós buscamos nos arquivos. Esse tal Nikolay já deve ter alguma passagem pela polícia em algum lugar do mundo.

            Matheus e Patrícia não conversaram durante a tarde. Matt não assumiria, mas tinha medo daquele segredo todo. O que fez Nikolay desejar expulsá-la de sua vida e lhe dar o que na sua visão seria o pior dos castigos? Ela o traiu de alguma forma. Só podia ser algo assim. Não lhe perguntou nada também por não terem passado toda a tarde juntos. Paty tinha um compromisso.

            - Pronta para conhecer seu novo ginecologista? Dr. Giancarlo é maravilhoso! – Disse Bia na sala de espera do consultório. – Eu te espero aqui fora.
            - Não...prefiro que entre comigo, se não se importar. Eu...eu...nunca fui a um ginecologista. Bom, não um de verdade, pelo menos.
            - Como assim? Sua mãe nunca te levou?
            - Não. Quando comecei a menstruar ela estava tão ocupada com o novo namorado que não teve tempo e depois, lá em Atenas, uma me dava anticoncepcional. Mas era só isso. Nem entendia a língua dela direito.
            - Bom... o Dr. Giancarlo você vai entender. – Bia estava chocada. – e ele vai te examinar. Nessa salinha não entrarei, mas no consultório eu vou junto, se você prefere.
            - Prefiro.

            A consulta foi longa e o médico pediu uma série de exames. Patrícia foi sincera e contou o que fazia para viver até muito recentemente. O médico olhou-a com um ar um tanto paternal e pareceu não desgostar dela por isso.

            - Independente da profissão, qualquer mulher deve se cuidar intimamente. E você tem apenas 19 anos. É uma menina ainda. Volte aqui com o resultado de seus exames e depois nós conversamos. Enquanto isso, eu vou lhe receitar um anticoncepcional.
            - Não há necessidade.
            - Tem certeza, Patrícia? Uma moça jovem e bela como você pode sempre ter um parceiro.
            - Patrícia! – Bia manifestou-se. – Pegue! Você não vai ficar só por muito tempo.
            - Não quero. Não há razão para eu tomar pílulas.


           
            Nos dias seguintes Miguel esteve agitado. Apreensivo. O chantagista pediu R$ 500 mil reais. Pouco se comparado a sua fortuna. Vergonhoso era ser obrigado a pagar e seguir nas mãos daquele bandido. Sabia ser aquele apenas o primeiro pagamento. Seguiria nas mãos do chantagista.
            Louis tentou adiar a entrega do pagamento por vários dias na tentativa de forçar o chantagista a deixar uma pista que os levasse a descobrir seu nome. Mas não conseguiam mais protelar.

            - É 500 na minha mão hoje a noite ou todo mundo vai ver sua noivinha gemendo no capô do seu carro. – A ameaça não era vazia. E Miguel sentiu medo.
            - Está bem. Como faremos a entrega?
            - Peça ao seu advogado para deixar as notas não sequenciais numa mala e largar ao lado da lixeira no portão três do aeroporto. Largue e saia sem olhar pra trás. Alguém da minha confiança pegará. Se estiver tudo certo, aquelas fotos e vídeos adormecerão. Se faltar um centavo na mala, prepare-se para o maior escândalo da sua vida.
            - Não faltará nada. A noite terá seu dinheiro. E que garantia eu tenho de que nunca mais ouvirei sua voz?
            - Eu não tenho de dar garantias, Benitez. Sinta-se feliz por manter sua noivinha feliz e segura por enquanto.

            Conforme combinado, Louis fez a entrega do dinheiro e Miguel sentiu-se aliviado por poder dormir tranqüilo, mesmo sabendo que aquela paz era temporária. Quando o dinheiro chegasse ao final, o bandido voltaria a lançar mão de chantagem.
            Duas coisas não passaram despercebidas de Miguel. O chantagista sabia que Miguel tinha um advogado como braço direito. Deveria observá-los dia e noite. E depois ele citou a segurança de Elizabeth. Isso o fez temer ainda mais. E se não fosse algo aleatório? E se a pessoa a flagrá-los transando não estivesse apenas buscando por um vídeo comprometedor, mas fosse também o responsável por atirar em Elizabeth e incendiar seu carro? Miguel começava a se arrepender de ter cedido à chantagem.

            - Louis! – Em plena madrugada, do banheiro do quarto e em voz baixa para não acordar Liza, ele ligou para o advogado. – Preciso que continue tentando encontrar esse cara.
            - Você já me pediu isso, Miguel. E, ao menos legalmente, é impossível.
            - Então saia do ‘legalmente’! – Ele estava desesperado. – Acho que pode ser o mesmo homem que tentou matar Elizabeth duas vezes. Descubra quem é e fique a postos. Na próxima vez que vir nos chantagear, teremos uma carta na manga.
            - Não acha que é hora de falar com sua noiva?
            - Não, Louis, não acho. Eu vou acabar com esse cara.
            - Está falando em entregá-lo para algum coleguinha de Elizabeth ou acabar mesmo? Seja claro, Miguel.
            - Faremos o que for necessário. Tudo o que for necessário para tirar de cena quem estiver colocando minha noiva em risco. Entendeu? – A ameaça dita em sussurros era inegável. Miguel estava disposto a cometer um crime.
            - Está bem. Vou investigar esses atentados. Talvez eles nos levem até nosso amigo misterioso. Boa noite, Miguel.
            - Boa noite, Louis.

            Após alguns instantes em silêncio, Miguel ouviu a batida na porta do banheiro.

            - Miguel? Você está bem?
            - Sim. Eu já vou voltar pra cama, Liz. Me dê apenas um minuto.


            Elizabeth via as mudanças de Miguel. Mas fingia ignorar. Não queria ser uma esposa chata. Seguiu com os preparativos do casamento sem esquecer de suas investigações. Entre provas do vestido, experimentar ‘bem-casados’ e verificar possibilidades de destinos de lua de mel, ela e Miguel seguiam com suas rotinas profissionais. Agora já contavam com um retrato falado de Nikolay. Rebeca tentou encontrá-lo nos registros, mas, até o momento nada. Mesmo assim ela seguia convicta de que a Rússia era o ponto de ligação entre todos aqueles casos e seguiria investigando assim que retornasse da lua de mel e recebesse seu distintivo de volta.



            Durante o almoço com Miguel eles definiram o destino da rápida viagem após as bodas. Cinco dias no Caribe para descansarem e iniciarem a vida de casados. Era o que a agenda de ambos permitia.

            - Eu queria te levar para Paris. Mas precisaríamos de mais tempo para conhecer a Cidade Luz devidamente. – Ele desculpou-se como se o Caribe fosse pouco.
            - Bobagem. O Caribe será maravilhoso ao seu lado. – As vezes Elizabeth percebia o quanto Miguel se dedicava a ela e, muitas vezes, sua atenção não era devidamente agradecida. - Eu te amo tanto, Miguel. Você me faz feliz.
            - É só o que desejo. A sua felicidade.
           
            Apesar dos problemas com o ex, Beatriz manteve sua rotina agitada no jornal enquanto mimava Eva e curtia Will sempre que possível. Os dois tinham horários de trabalho muito difíceis de conciliar. Então, piqueniques no parque junto de Eva e almoços rápidos e românticos tornam-se a especialidade do casal.
            Naquela noite eles teriam um encontro raro e especial. Ambos estavam de folga e Matt comprometeu-se a pegar Eva na escolinha. Ele e Paty cuidariam da menina. Cinema, jantar e uma noite de amor. Esses eram os planos de Beatriz. Eles já namoravam firme há algumas semanas e ainda não haviam transado. Will não tinha reclamado de nada, nem a pressionado, mas Bia o queria e tinha pressa.

            - Você não devia ter me deixado escolher o filme. Foi romântico e bobinho demais. – Bia riu durante o jantar. – O mocinho era todo derretido.
            - Eu também sou romântico e bobinho demais só por estar completamente derretido por você?
            - Não. Você é perfeito justamente por isso. E eu estou completamente apaixonada por você.

            Os dois terminaram o jantar sem pedir a sobremesa. Will disse ter sabores bem mais agradáveis por vir ainda naquela madrugada. Bia não se arrependeu por esperar, nem por passar vários minutos escolhendo aquela lingerie. Willian pareceu apreciá-la como se fosse uma obra de arte.

            - Perfeita. Linda. – Lhe dizia entre beijos.
            - Você é um belo mentiroso...e eu estou adorando ser enganada assim. – Bia derretia-se com aqueles carinhos. – Nenhuma mulher tem corpo perfeito após ter um bebê.
            - Você tem. E não me distraia, Bia. Estou muito ocupado por aqui. Tenho muito da sua pele para beijar ainda.


            Enquanto o casal divertia-se sabendo que Eva estava bem cuidada, Matt e Patrícia olhavam a pequenina dormir na cama improvisada. Eles juntaram vários colchões no chão da sala do apartamento. E os três estavam prontos para dormir ali mesmo. Quase como num divertido acampamento.

            - Ela apagou. – Paty disse acariciando o cabelo da bebê. – Também, depois de correr naquele parquinho.
            - É. Eles têm uma energia sem fim. E nos cansam um monte. Eu estou acabado.
            - Mas você adora, Matt. Eu o vi no parque jogando futebol com as crianças maiores.
            - Criança é maravilhoso. E não venha me dizer que você não gosta! Eu a vi olhando para os bebês nos carrinhos. Você tem vontade ser mãe, Paty?
            - Não! Nenhuma. Isso está fora dos meus planos.

            Matheus não entendeu. Aquela resposta simplesmente não combinava com a Patrícia dedicada a Eva que via sempre nos momentos junto aos amigos. E ela só faltou se oferecer para embalar os bebês do parque. Mas então, nada daquilo era novidade. Patrícia era cheia de segredos. E cada vez mais ele sentia a necessidade de decifrá-la.
            Na manhã seguinte Bia veio buscar a filha bem cedo. Mais cedo do que o esperado. E na sua expressão Matt viu haver algo de muito errado com a amiga. Ele colocou um xícara de café fumegante em suas mãos e deixou-a falar.

            - Chegou um comunicado da justiça! Deram a Rafael o direito de passar uma noite por semana e dois finais de semana por mês com Eva! O que eu posso fazer?
            - Nada. – Ele foi direto.
            - Como nada? Matheus! É a Eva! A sua afilhada!
            - E filha de Rafael, Bia. Ele sempre teve o direito de ver a filha e nunca desejou exercê-lo. Agora, a menos que ele faça algo de ruim à filha, que justifique entrarmos com um recurso para a juíza rever a decisão, será perda de tempo.
            - Mas ele não quer Eva. É só para me atingir. – Ela estava revoltada.
            - Mesmo assim. É um direito dele.

            Beatriz tomou o café da manhã com os amigos antes de levar Eva para casa. Não lhe passou despercebido o olhar de Matt para as pernas de Paty quando ela acordou e veio na sala com uma camisola curta. É, aquele plano de seduzir o amigo estava dando certo.

            - Nos vemos ainda essa semana? Ou só no casamento? – Ela perguntou ao sair carregando a bebê.
            - Bia, será que você pode me ajudar a encontrar um vestido para eu ir ao casamento? Vou acompanhar Matt e não quero fazer feio.
            - Ótimo! Vamos sim. E você, Matt, até sábado. Liza está emocionada por você levá-la ao altar.

            - Eu não permitiria outra nessa função. Tchau, Bia.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Cap 8 - Diaba Ruiva: Passado Revelado




Sem muitas informações de como sua esposa estava, Neal aguardava junto de Mozz na recepção da clínica. Dizia a si mesmo que era um plano, uma farsa tão bem bolada que até mesmo a médica tinha acreditado nos gritos de Rachel. Mentia para si mesmo desejando não crer na possibilidade de algum mal ocorrer com as mulheres da sua vida.

- É impressionante! Pequena Helen já coopera com nossos planos ativamente! Ela nem nasceu e já sei que será brilhante no nosso mundo. É claro! Sendo filha e Nea...
- Chega, Mozz!Helen não está cooperando com nada! Helen não está bem!
- Ela quis nos ajudar! – Mozz insistiu. Mas depois, entendendo o desespero do amigo, tentou tranquilizá-lo. – Se a minha opinião servir para algo...tenha fé. Sua filha está ótima...e já está inscrita na ‘academia do Tio Mozz para criminosos principiantes’.

Peter e Elizabeth deixaram Valentina e Sofia com os avós maternos e correram ao hospital. Nervosa, Ell não conseguia sequer pensar na dor que uma complicação como aquela poderia trazer ao casal de amigos. Se sua Valentina tivesse qualquer problema, eles entrariam em desespero.

- Neal! – Peter chamou logo após avistá-lo. – Podemos ajudar em alguma coisa?
- Oi. Na verdade não. A equipe médica não autorizou a ninguém entrar. Então eu estou aqui, sem poder fazer nada.
- Qual o diagnóstico? – Ell perguntou.
- Descolamento da placenta. Mas ainda averiguam a gravidade. – Ele passou as mãos pelos cabelos já emaranhados. – Se não estabilizar, farão uma cesárea de emergência.

Mozz, Peter e Elizabeth sabiam o quanto aquela situação trazia a Neal lembranças ruins. Ele já tinha passado por tudo isso e, no caso de Lis, a cesárea de emergência não teve final feliz. Por traz daquela frágil tentativa de manter o controle, Neal estava com medo de perder mais uma filha.
Porém, todos estavam enganados. Não era uma tentativa de manter uma falsa frieza. A dor por Lis o tornara mais frio. Nada poderia machucar mais. E algo lhe dava a fé necessária para acreditar na sobrevivência de Helen. Àquela tragédia passada também lhe tornara mais forte e decidido a tomar a frente das próprias decisões. Dessa vez, não autorizaria a cesárea sem a certeza da sobrevivência da filha. Dentro da mãe ela estava protegida. E Rachel estava bem, estava consciente, segundo a médica.

- Drª Laura! – Gritou ao ver a medicar surgir nas imensas portas da emergência obstétrica. – Posso ver minha mulher?
- Daqui a alguns minutos. Primeiro vamos conversar. Venha comigo.

Nervoso, Neal não estava disposto a ouvir nada antes de deixar clara sua posição.

- Não será feito parto sem a autorização de minha esposa. Não cometerei esse erro novamente. Minha filha...
- Acalme-se, Neal. Sua esposa está acordada e já ameaçou minha equipe de coisas bem desagradáveis caso alguém aproxime um bisturi de seu ventre antes de Helen nos dar sinais de que deseja vir ao mundo.
- Ótimo! Como Rachel e Helen estão?
- Sua filha está bem e Rachel aparenta perceber isso, então também mantém a calma. Está acordada e estamos monitorando.
- Isso significa que está tudo bem? Normal? Ele sai do hospital quando?
            - Nada disso, Neal. Entenda, normalmente, se a gestante estiver perto da data prevista para o parto e é constatado deslocamento de placenta, é feita cesárea mesmo que o descolamento pequeno para garantir a tranquilidade no momento do nascimento.  É essa a minha indicação para vocês. Já disse para Rachel e ela negou. Com muita ênfase, devo dizer. Mas você é o pai e o marido. Se você autorizar...
            - Não...eu não irei contrariá-la, Drª. É ela quem carrega Helen. E se Rachel sente que ficar com ela mais algum tempo é o melhor, será assim. Posso vê-la agora?
            - Você sabe que a visitação, mesmo em casos de internação hospitalar, é negada para presos considerados perigosos...
            - Eu preciso vê-la...eu vou vê-la...
            - Acalme-se! – Drª Laura gritou. – Sua entrada foi negada pelo juiz, mas eu intercedi, afirmando que sua presença poderia ser importante para manter a paciente calma e assim garantir a vida da criança. Eu consegui uma visita de alguns minutos. Não me peça mais.

            Ele não pediu. Apenas agradeceu Laura e acompanhou-a até o quarto. No caminho foi gravando cada passo, cada curva do caminho. Iria entrar ali muitas vezes durante a internação de Rachel. Ninguém o impediria disso. Enquanto caminhava, seu coração estava com elas, apreensivo, precisando vê-las e ter a certeza de que estava tudo bem. Mas sua cabeça já trabalha num plano que garantisse seu contato nos próximos dias. Discretamente, pegou o celular e mandou uma mensagem para Mozz. [Vá para casa e estude a planta desse prédio. Travessuras à vista.]
            Foi revistado ao passar pelos guardas e logo ao entrar viu nela um sorriso sereno. Neal respirou aliviado. Era um sorriso calmo, seguro e sincero. Rachel estava realmente bem. Estava consciente de que as coisas se complicaram, mas sentia Helen se movimentar em seu ventre. Helen estava bem. E ficaria lá, protegida, até a hora do parto. Até estar pronta para enfrentar a vida fora do útero.

            - Nós estamos bem. – Disse abrindo os braços para recebê-lo. – Helen vai nascer na hora em que desejar. Não vamos apressar nada. Ela nos dirá a hora certa, nenhum minuto antes.
            - Deixarei vocês a sós. – Laura afirmou da porta. – Você tem 10 minutos, Neal. Tente não exaltá-la muito.
            - Eu me assustei tanto quando a doutora me disse que tudo era realidade...cheguei a pensar se tratar de um castigo de Deus. Por nós brincarmos com um assunto tão importante quanto a vida de vocês.
            - Calma, amor. Se Deus está bravo com a gente, não será em Helen que nos castigará. Ela está bem. Eu sinto. – Rachel riu largamente. – Eu acho que a nossa menina decidiu ser nova-iorquina!

Escolha de Helen ou não, fato era a impossibilidade de uma fuga naquela situação. Rachel amargaria algum tempo internada e Helen nasceria ali mesmo. Só o que incomodava Rachel era a possibilidade de ficar incomunicável naquele período, sem receber visitas.
- Não quero te deixar aqui. – Ele disse. – Quero te levar pra casa e eu mesmo cuidar de vocês.
- Eu também queria ser cuidada por você. Mas não é possível, Neal. Então...então vai, cuida do George e continua no FBI lutando para me aceitarem por lá novamente.
- Da onde vem toda essa serenidade? Você não é assim.
- Minha filha nascerá com a mãe em liberdade. Ela está esperando o nosso acordo ser autorizado. Chame de ‘sexto-sentido’.

Somente uma premonição mesmo. Porque de concreto nada havia naquele sentido. Nenhuma indicação de que o júri daria a Rachel a possibilidade de cumprir pena em regime de trabalho no FBI.

- Meus dois filhos estão bem e você está com a gente...então tudo irá se acertar. – Ela ainda disse enquanto lhe acarinhava a mão. - Vai tranquilo e sonha conosco essa noite. Eu e Helen vamos sonhar com nossos rapazes também. Dê um beijo em George por mim.

Naquela noite Neal e Mozzie planejaram as melhores formas de entrar no hospital sem serem vistos. Analisaram as alternativas desde a tubulação até a possibilidade dos guardas aceitarem suborno. Tudo foi observado.

- Verifique os horários de troca de turno daqueles guardas. – Ele pediu a Mozz.
- São dois em cada turno, Neal. Não vai conseguir distraí-los e entrar lá assim.
- Teremos de achar um jeito. A Drª Laura estipulou como data limite para o parto três semanas a frente. Se Rachel não entrar em trabalho de parto, farão a cesárea. Não posso ficar esse tempo todo sem vê-la.

Mozz passou o dia seguinte inteiro procurando alternativas enquanto Neal trabalhou no FBI. Estavam todos um pouco nervosos por lá. Muitos casos se acumularam e por Diana tratar-se da agente da maior confiança, Peter deixava a maior parte dos sob sua responsabilidade quando ele não estava no FBI. Hoje ele estava lá, porém, trancado em sua sala e incomunicável.

- Sabe o que há?
- Não sei, Neal. – Diana respondeu. – Mas deve ser grave. Não sai daquele telefone e pediu para não ser incomodado

 Peter passou o dia equilibrando-se, principalmente, entre dois casos. Um era o de Lorenzo Beltracci. Nesse, pouco podia fazer até o falsário lhes dar uma pisca de como e quando iria ‘limpar’ seu apartamento. Mas isso não impedia Stone de cobrar resultados. Ao que parecia o chefe de Sara, proprietário da seguradora, tinha bons contatos no governo e vinha pressionando para a resolução daquele caso. Quando fosse preso, Lorenzo renderia bastante à empresa graças as peças roubadas que tinha guardadas.

- É simples de entender, Stone. Eu não tenho mandado para invadir o apartamento, então Lorenzo precisa retirar as peças de lá. Para isso, nós o fizemos crer que será roubado. Logo ele tentará algo. E vamos pegá-lo. – Ter de explicar isso era chatíssimo e Peter estava sem paciência.
- Não pode ter nenhum erro, Burke! Se Lorenzo Beltracci tirar essas peças sem que sua equipe faça a intercepção, a responsabilidade será sua.
- Sim, sim...só que é fácil falar! Eu faço o melhor possível! – Peter explodiu. – Se devolvessem minha equipe completa, facilitaria!
- A Rachel voltará quando o juiz permitir. E isso ocorrerá apenas quando tivermos um caso onde ela seja imprescindível. Aliás, pelo que me disseram, ela está hospitalizada e com uma barriga imensa. Não nos é útil no momento. Ela vai parir e depois, se houver possibilidade, eu a reintegre a equipe. Enquanto isso, seja eficiente, Burke!
- Eu e minha equipe somos!

O outro assunto pelo qual Stone ligou era mais estranho e, na opinião de Peter, pouco podiam fazer para auxiliar a Interpol. Alguns atentados, até o momento sem razão aparente, movimentaram a Europa. Na Itália uma bomba na estação de trem mais movimentada matou 11 pessoas, além de destruir o monumento turístico lá abrigado. Nenhum grupo extremista assumiu a autoria. Três semanas depois, outra bomba caseira, similar, foi deixada em uma antiga catedral, histórica, em Berlim, na Alemanha. Não houve vítimas fatais, mas a perda histórica foi grande. Somente quando o terceiro atentado ocorreu, há dois dias, na Áustria, a ligação entre os três atos criminosos foi feita. Esse último deixou dois mortos e também destruiu um local tombado como patrimônio cultural.

- A aposta da polícia internacional está num fanático conhecedor de arte. Os três atentados ocorreram os locais bonitos, que abrigavam obras de arte assinadas por mestres da pintura e escultura. – Explicou Stone.
- É um caso desafiador. – Do tipo que Peter mais gostava. – Mas a Interpol tem especialista em arte. Porque a minha equipe tem de se envolver? Estamos cheios de trabalho.
- Ainda é um absoluto segredo, Peter. Absoluto. Nós recebemos um aviso da Interpol de que o próximo ataque seria nos EUA.
- Alguma ideia de onde? O número de lugares com obras de arte é imenso.
- O seu trabalho será descobrir. Sua melhor chance é descobrir como esse louco escolhe seus alvos. Se descobrir porque ele escolheu aqueles lugares na Itália, Alemanha e Áustria, poderemos antecipar qual será o alvo americano.

A questão era séria e Peter não podia contar à sua equipe do que se tratava. Mas precisava deles. Então chamou seus colegas de trabalho e lhes disse o que pode.

- Eu sei que estão estranhando o meu comportamento e querem uma explicação. Não posso dar, infelizmente. Ainda assim, vou pedir o empenho máximo de vocês. Nas próximas semanas as coisas serão difíceis por aqui. Além dos casos aos quais todos estamos nos dedicando, precisaremos colocar toda nossa atenção na prisão de Lorenzo e numa operação sigilosa  a qual vou explicar apenas o mínimo que vocês precisam saber.

- Porque o segredo? – Henrique questionou.
- Porque é um assunto internacional.
- MI5? – Qualquer envolvimento com a polícia internacional poderia facilitar ou complicar a vida de Rachel. Neal imaginava se essa investigação sigilosa poderia envolver algum crime do passado dela.
- Não, Interpol. – Erguendo-se e andando pela sala de reuniões começou a falar. – Por enquanto, preciso que vocês pesquisem e mapeiem os lugares que abrigam obras de arte. Comecem pelos artistas de maior renome. E podem intensificar nas obras com origem no século XVII.
- Expostas em Nova Iorque? – Diana perguntou.
- Todo o país.
- Mas são milhares...milhões, talvez, de parques, museus e prédios com obras de arte. – Henrique disse. Levará muito tempo.
- Comecem o quanto antes então. – Encarando olhares preocupados Peter deu os últimos avisos. – Até finalizarmos o caso de Lorenzo, Diana comanda essa operação. Depois eu assumo. Porém, todos teremos de acumular os dois com 100% de dedicação. Dessa vez, eu não posso relegar nada para agentes menos experientes. Vocês são os melhores com quem posso contar. Posso contar com vocês?
- Claro chefe! – Eles responderam em coro.
- Ótimo. Então vão para casa, descansem e amanhã cedo venham animados e preparados para trabalhar em dobro. Essa noite a vigilância do Lorenzo fica comigo, Henrique assume amanhã às 7hs.

Sozinho na sala de vigilância, Peter mantinha os olhos no computador, fazendo ele mesmo uma parte da pesquisa pedida aos comandados. E tentando imaginar qual a ligação naqueles atentados. Nada lhe vinha à mente. Enquanto isso, parte de seu cérebro seguia atento às escutas para acompanhar caso o apartamento de Lorenzo tivesse algum movimento no meio da madrugada. Escutas essas, ilegais. Caso realmente prendessem Lorenzo, teriam de fazer parecer que estavam seguindo-o porque não havia autorização para entrar no apartamento, deixar escutas ou grampear telefones.

- Ser 100% certinho nem sempre é possível. – Isso era, certamente, a influência de Neal em sua vida.

Mas nem só do trabalho sua mente se ocupou durante aquela noite. Pensou em Ell, Sofia e Valentina em casa e ele ali, trabalhando. Sem conseguir resistir, mandou uma mensagem de texto para Ell e, ao saber que ela visualizou o texto, soube que estava acordada e lhe telefonou.


            - Devo presumir que Valentina está agitada?
            - Não, querido. Dormiu até há pouco. Mas acordou aos berros de fome. Está grudada no meu peito.
            - Que bom...eu queria estar aí, Ell.
            - Eu sei. Como está o trabalho?
            - Difícil...não param de surgir complicações. Mas tudo irá se resolver. Boa noite, querida. Nos vemos amanhã cedo.
            - Até logo, meu amor.

           
            Na manhã seguinte, Neal, crente de que era a melhor saída, colocou o Dr. Caffrey para trabalhar. De jaleco branco, crachá falso e óculos, Neal entrou no hospital disfarçado de ginecologista e obstetra. Isso lhe dava acesso à ala de obstetrícia. O mais difícil foi passar pelos guardas na porta. Mozz resolveu isso com um truque bem antigo. Algumas gotinhas de remédio no suco gentilmente trazido da copa e, de repente, ambos tiveram que correr até ao banheiro. Quando Rachel acordou, ele estava lá, observando-a.

            - Neal! Você...e os guardas e...
            - Eu disse que viria. Posso beijar minha mulher?
            - Ela está ansiosa por isso.

            Alguns segundos era pouco e o beijo se estendeu por longos minutos. Rachel vestia a camisola hospitalar e tinha os cachos avermelhados presos num coque. A vontade dele era desfazer o penteado e bagunçar os fios até deixá-los revoltos como mais gostava.

            - Me ajuda a chegar ao banheiro? A cama é alta. – Enquanto caminhava devagar com o apoio do marido Rachel continuou sanando a curiosidade. – Como passou pelos guardar?
            - Digamos que eles também foram ao banheiro.
            - E como vai sair daqui depois?
            - Direi que sou médico, mostrarei esse crachá e direi que vim examiná-la.

            Eles não tinham muito tempo. Se demorasse muito, a desculpa de ser o plantonista seria descoberta e ficaria impossibilidade de repetir o golpe. Aproveitaram o tempo namorando e curtindo os movimentos de Helen na barriga. Ela era bem ativa logo pela manhã. Não havia passado nem quinze minutos quando Neal avisou-a de que teria de ir embora.

            - Já...mas eu volto logo. Me dá mais um beijo antes de eu ir?

            O beijo era para ser rápido...mas não tanto. Afastaram-se assustados ao ouvirem a maçaneta da porta ranger. Alguém estava entrando. Poderia ser o guarda que no retornou resolveu checar a presa, a drª Laura ou...uma completa surpresa. E foi.
            O guarda entrou sim...mas apenas para acompanhar o visitante: Peter Burke. O chefe primeiro o observou com o rosto avermelhado. Neal sabia que estava encrencado. A dúvida era se Peter iria manter aquele assunto em particular ou delatá-lo para os policiais.

           


            - Ei, Ei! Nós não vimos você entrar aqui! – Um dos uniformizados disse.
            - Sou médico e estou fazendo o meu trabalho. Se vocês não estavam cumprindo sua função, não é problema meu. Eu já...já vou indo. Tenho pacientes aguardando. Se me dão licença....
            - Espere, Dr.! Eu o acompanho! Outro dia venho conversar com você, Rachel! – Peter disse ainda bufando de ódio. – Vamos conversar a respeito do estado da paciente!
            - É claro...eu estou à disposição. – Neal respondeu agradecendo Peter por manter seu disfarce.
           
            Quando deixaram o hospital, Peter disse a Neal tudo o que se esperada de um policial honesto e sem margem para armações como aquela. Peter jamais permitiria um esquema como aquele. Motivo pelo qual Neal nunca o avisava desse tipo de ação, mesmo quando elas ajudam o departamento a resolver os casos. Por quase 20 minutos Neal ouviu calado Peter expor todos os seus argumentos sobre como era arriscado invadir um hospital passando-se por médico. No fim, ele disse apenas uma frase ao chefe.

            - Se fosse Elizabeth você iria deixá-la no hospital sem tentar vê-la?

            Peter foi para casa dormir sem falar mais nada para Neal. Ele não compreenderia suas razões mesmo e estava cansado demais após a noite em claro. Só tinha passado no hospital porque desejava ver Rachel e conversar um pouco com ela. Mesmo com suas divergências, sempre reconheceu nela uma grande agente e, por sua experiência internacional, podia ser muito útil na busca ao terrorista.

            Neal foi para o FBI e sob o comando de Diana começou sua pesquisa aos pontos que abrigavam coleções de arte nos EUA. Sem detalhes do que buscar, ficava muito difícil. Peter tinha esses detalhes e não dividiu com a equipe. Isso deixou a todos chateados. Sentiam que estavam trabalhando em vão ou, ao menos, totalmente no escuro.

            - Sejamos francos: é impossível! Mesmo que trabalhássemos exclusivamente nisso durante o mês todo não teríamos o relatório de 100% das áreas com obras de arte no país. – Henrique disse tirando os olhos de um calhamaço de papéis.
            - Precisamos de mais detalhes! Peter sempre confiou em sua equipe e nos confiou os assuntos. – Neal concordou com o colega.
            - Não olhem pra mim, colegas. – Diana falou. - Eu também não faço ideia do porque recebemos essa tarefa. Mas sei que é muito importante então: continuem a pesquisa. Eu vou checar a localização de Lorenzo. Ele passou a manhã quieto demais.

Assim passaram-se três dias. Lorenzo perigosamente silencioso, Peter misterioso, Diana estressada, o restante da equipe desconfiada e Neal muito irritado. Não era só o caso ou a certeza de que, com as informações completas, poderia ser mais útil. Seu problema pessoal incomodava bem mais. Desde que Peter o pegou no hospital, ele não viu nem falou com Rachel. E isso o estava enervando. Era hora de colocar outro plano em prática.
Para isso, ele e Mozz ensaiaram bastante. Estava proibido de chegar perto do hospital. E até a Dr. Laura lhe pediu para evitar lhe causar problemas ou estressar Rachel com visitas furtivas. Mozz então lhe disse que se pessoalmente era impossível, a tecnologia iria ajudá-los.

- O Sinal de Wi-fi do hospital é ótimo! – Ainda lhe garantiu o amigo.
- Quer que eu peça para Laura entregar um celular para Rachel? Ela vai se negar. Não quer que eu invente mais nada de arriscado.

- Você tem a esse amigo aqui para resolver isso, Neal.

O plano de Mozz estava armado. Com uma rápida conversa com Laura, Neal descobriu que em dois dias Rachel faria uma ultrassonografia. Nesse dia, Mozz cruzaria com ela na área onde são feitos os exames de imagem.

- Vamos dizer que eu sofri uma queda e preciso fazer uma tomografia computadorizada.
- Depois que estiver lá dentro, me livro dos enfermeiros e entrego a encomenda.

Neal realmente não poderia ter um amigo mais perfeito. Mozz adorava esses planos malucos. George o Teddy foram juntos pela manhã bem cedo para a escolinha. Diana, ao passar de carro, perguntou se Neal queria uma carona, mas ele negou afirmando que Mozz sofreu uma queda e ia levar o amigo ao pronto socorro.

- Eu o levo! – Ela prontificou-se.
- Não! Quer dizer...não precisa! – Era só que faltava. – Ele nem quer ir...eu vou tentar convencê-lo.
- Está bem. Qualquer coisa me avise.



Neal levou Mozz até o hospital e, aos gritos, o paciente anunciou que poderia estar morrendo e precisava fazer uma tomografia na cabeça. Dizia ter caído da escada, ser um milagre estar vivo e precisar de atendimento médico especializado.

- Acalme-se, senhor. O médico irá avaliar se necessita da tomografia.
- Claro que necessito! Minha vida depende disso! Vamos, mechasse! Se eu morrer a culpa será sua!

Neal chamou a recepcionista num canto e tentou convencê-la com seu charme.

- O meu amigo é um tanto paranoico, provavelmente não tem nada grave. Mas só vai se tranquilizar quando fizer a tomografia...então é bom levá-lo, com urgência, ao setor de exames de imagem. Tudo bem?
- Esse é um exame bem caro, senhor.
- Não se preocupe, dinheiro não é problema...apesar da aparência simples, meu amigo é milionário.

Agora cheio de mimos e cuidados, Mozz foi levado exatamente onde desejava. No colo carregava uma pequena nécessaire contendo celular e carregador. Quando avistou Rachel, fingiu uma súbita dor e gritou o mais alto que pode. Atraiu a todos os olhares, inclusive o que desejava: de Rachel.

- Sr.? O que sente? É uma tontura? Dor?
- Não!
- Então porque gritou?
- Sede! Vá buscar água pra mim...quero com gás, uma rodela de limão e duas pedras e meia de gelo. Preste a atenção, são duas pedra e meia, nem mais nem menos. Ande! Vá buscar! Ou quer que eu grite mais?!
- Não, não...eu já vou.

Sob o olhar atento de Rachel, Mozz largou a encomenda sob um banco próximo dela. Depois manobrou sua cadeira de rodas e passou ao seu lado.

- Guarde em lugar seguro...depois pode me agradecer. – Sussurrou na passada.

A partir daquele momento, Neal e Rachel trocaram mensagens constantes. Ela escondia o aparelho sob a cama ao qualquer sinal de movimento do outro lado da porta e pegava-o quando tinha certeza da segurança.

[ como estão meus garotos ?]
                               [ótimos. George foi para escola sorridente.]
[ J fico feliz. Amo vocês]
                               [Helen não deu nenhum sinal ainda? Dr. Laura disse que em 20 dias fará a cesárea. Pela segurança de vocês duas.]
[Ela me disse.
Mas nossa menina está bem,
está saudável. E ainda satisfeita
em ficar junto de mim.]
                            [Nisso eu invejo Helen.]
[Bobo! )

- Neal! Quando puder sair do celular e vir trabalhar, o FBI agradece. – Peter o chamou para uma reunião

             [tenho de sair. Volto depois. Bjs e te amo]

Havia um motivo concreto para Peter estar chamando Neal. Os agentes de campo a vigiar Lorenzo haviam alertado para a chegada de dois caminhões estacionados na frente do prédio há duas horas. Até o momento, porém, as escutas não acusaram visitantes.

- Será que ele desconfiou e por isso está bloqueando o som? Pode ter nos descoberto. – Neal cogitava. Se fosse ele a ter aquele acervo escondido em casa, após receber agentes do FBI, revisaria cada possível local para uma escuta.
- Parece que não. Ele foi mais esperto do que pensamos! – Peter gritou.
- O que foi?
- Eu explico, Neal. – Sara disse. – Enquanto nós monitorávamos a saída do prédio e os sons na casa, Lorenzo alugou outro apartamento no mesmo prédio, três andares abaixo da sua cobertura. No nome de um laranja qualquer. E transferiu tudo, provavelmente.
- Então, se tiver uma batida lá, ele não é preso porque as peças não estão num imóvel dele. – Esperto, Neal pensava.
- Exato! Mas porque os caminhões? – Diana perguntou.
- Ele vai tirar as peças de lá. Só pode ser isso. – Sara falou. – Temos de pegá-lo nesse momento e recuperar tudo.
- Não temos nada contra Lorenzo, Sara. Nada. – Peter lembrou.
- A menos que...- Neal começou a entender o plano de Lorenzo. O homem era dos bons. – Os caminhões não vieram levar nada. Trouxeram mais mercadoria. Lorenzo está usando esse novo apartamento como estoque. Deve ter uma fortuna lá. Mande alguém seguir o caminhão, Peter. Provavelmente nos levará ao ‘ateliê’ do artista que faz as cópias deixadas por Lorenzo aos roubar os originais. Meu palpite é que Lorenzo visita o lugar para conferir as falsificações. Na próxima vez em que for lá, pegamos os dois.

Peter concordou com Neal. Ele conhecia esse tipo de golpe, esse tipo de gente. Poderia estar certo. Então seguiu a sugestão do amigo e fingiu não perceber que logo ele voltou a dar mais atenção ao próprio celular.
Cerca de 50 minutos depois, recebeu o aviso de que o policial responsável havia seguido o caminhão até um antigo depósito localizado num bairro ao noroeste da cidade.

- Fique de olho aí. E tente descobrir quem são os frequentadores e o que é produzido nesse endereço.

Passaram-se sete dias e Lorenzo não deu as caras no depósito. Até mesmo Neal começou a desconfiar da sua brilhante ideia. Ele era bom, mas até os bons se enganavam algumas vezes. O nervosismo do consultor e dos agentes também só fez crescer. De Neal, pela iminência do nascimento de Helen. Os outros pelo estranho comportamento de Peter. A equipe continuava mapeando parques e museus com obras de arte e, raivosamente, seguia sem saber o motivo. E todo aquele trabalho parecia sem sentido. Isso deixava a todos desmotivados e os fazia render menos na tarefa.

Devido a isso, numa atitude rara, Peter desrespeitou sua chefia e abriu o jogo aos comandados. À portas fechadas, contou sobre os atentados e da ameaça de um ataque em solo americano. Todos ficaram chocados com a gravidade daquilo e passaram a se dedicar mais. Neal recebeu uma tarefa diferente dos demais. Deveria estudar as obras de arte destruídas nos atentados anteriores e tentar encontrar a fórmula usada pelo terrorista na escolha dos alvos.

- E não vamos investigar suspeitos? – Diana estranhou.
- A Interpol está cuidando disso.

Pelos próximos dias a equipe dedicou-se ao máximo em suas tarefas e, salvo uma dupla de agentes, o caso de Lorenzo ficou em segundo plano. O medo de um ataque terrorista tocava mais alto. Neal encontrou uma curiosa ligação entre os casos.

- Os três lugares eram privados. As obrar eram restritas a quem podia pagar para vê-las.
- Você acha que pode não se tratar de algum terrorista, mas sim algum tipo de manifestante, revoltado com o fato dos países lucrarem com a arte?
- É só uma ideia...
- Não...você pode estar certo. Vale a pena seguir essa pista. Diana! – Ele gritou do segundo andar. – Direcione as pesquisas para os locais com entrada paga!
Dois dias depois, Peter recebeu as informações tão esperadas. A Interpol tinha um suspeito. Thomas Carter, inglês com forte atuação em movimentos sociais e atuação política. Sempre teve atitudes extremistas e já havia ameaçado invadir prédios públicos, além de condenar o lucro sobre a arte.



- É ele. – Peter queria desacreditar.
- Isso é bom, não, chefe? – Diana não entendeu.
- É...mas o outro aviso da polícia internacional, não. A informação é de que Carter está em território americano. E isso confirma a tese de que irá acontecer um atentado aqui.
- Qual o próximo passo? – Henrique perguntou.
- Contatar a embaixada inglesa e pedir o apoio deles nas buscas a Thomas Carter. Encontrá-lo antes de uma tragédia. Continuem tentando descobrir onde será o alvo. Eu sigo com o restante.

Se a Colarinho Branco já estava fervendo nas últimas semanas, nada os preparou para os dias seguintes. Era como se dois terremotos estremecessem o FBI ao mesmo tempo. Primeiro, Lorenzo recebeu uma misteriosa ligação chamando-o para ‘verificar’ a mercadoria nova. Todos comemoraram...até Stone ligar e avisar ter ocorrido uma importante reviravolta sobre Carter. E tudo isso junto não pesava nos ombros de Neal tanto quando a contagem regressiva para o parto. Em quatro dias vencia o limite estipulado pela médica...e Rachel não aparentava pressa alguma de dar a luz.

- Neal! Concentre-se na ação. – Lembrou Peter ao vê-lo distraído. – Venha comigo. Stone quer você na reunião sobre Carter. Diana e Henrique vão liderar a perseguição a Lorenzo.
- Se antes era segredo, porque me querem lá?
- Não sei. Mas venha comigo. Temos uma reunião do outro lado da cidade.

Nada preparou Neal para as revelações da reunião. Junto de Stone estava o embaixador da Inglaterra nos EUA. Sr. Nohan aparentava ser um homem calmo, de meia idade e elegante. Um homem responsável pelas relações internacionais entre os dois países. E, aparentemente, ele estava disposto a ajudar nas buscas a Thomas e ao encaminhá-lo de volta ao país de origem, oferecer-lhe direito a defesa e tratamento psiquiátrico se assim fosse necessário. Tudo correu tranquilamente na reunião. Até Nohan fazer uma exigência.



- Nós iremos definir o agente responsável pelo caso. Sabemos da sua competência, Agente Burke, e que tudo passará pelo seu crivo, porém desejamos indicar a agente para estar na liderança com você.

Era surpreendente, mas não um problema. Neal, Peter e Stone observavam enquanto Nohan abria uma pasta que tinha em mãos. A surpresa tomou a todos quando viram se tratar de um arquivo. E ele abrigava informações de Rachel.


- O que isso significa? – Neal revoltou-se. – Minha esposa está presa há meses. Não pode lhe ser atribuído nenhum desses atentados e...
- Eu não estou acusando Rachel Turner de nada, Sr. Caffrey...a não ser, talvez, de ter os mais belos olhos azuis já vistos por mim.
- Rachel Caffrey, você quis dizer. – Neal não estava nada satisfeito. – Porque esse arquivo?
- Porque é ela a nossa indicação para agente à frente desse caso.

Peter foi o mais surpreso. Não que fosse ruim. Poderia ser a deixa para Rachel retornar e ficar na equipe. Mas o momento era impróprio. Seria possível. Ela estava prestes a dar a luz.

- Rachel está hospitalizada. Não é possível. Terá de fazer outra indicação.
- Acho que eu me expressei mal, Sr. Burke. Não é uma indicação. É uma condição. Se Turner não assumir, nós não ajudaremos. Entendeu?
- Pode nos dar um motivo? – Stone indagou. - A equipe é de grandes profissionais. Porque escolher uma condenada, nos EUA e na Europa? Diga-me, Sr. Nohan, o objetivo é ajudar a prender ou manter solto esse maluco?
- Não me ofenda! – Nohan foi duro na fala, mas não ergueu a voz. – Quero Turner porque ela é a melhor, porque tem experiência em casos na Inglaterra e porque confiamos no seu julgamento em momentos difíceis. E, se temos mais motivos, eu não pretendo dividi-los com vocês agora.

Não tinha como fechar aquele acordo assim, sem autorização judicial. Mas por dentro Neal confundia os sentimentos. Estava confiante na saída dela. Talvez Helen realmente nascesse com a mãe em liberdade. Mas não confiava em Nohan. Ele tinha algo de estranho. E aquela obsessão por Rachel podia render um preço alto demais pela liberdade dela.

Sem muito o que poder fazer por esse caso, Neal apenas mandou uma mensagem para Rachel dizendo que surgira uma possibilidade para ela. Pediu para manter a fé. Depois seguiu com Peter para atualizar-se quando a prisão de Lorenzo.

- Estou aqui, chefe. – Diana disse ao atender a ligação. – Lorenzo veio e está lá dentro. Vamos invadir em instantes.
- Não! Espere! Eu e Neal estamos indo. Não é longe. Se eles saírem você intercepta. Se não, nos aguarde. Quero assistir.

Neal não queria. Preferia ir para casa e ficar conversando com Rachel pelo telefone. Mas não pode fazer nada. Instalou-se na van junto aos colegas e esperou Peter dar o sinal. Quando chegou a hora, policiais fardados cercaram o local e anunciaram a operação. Lá estavam Lorenzo, o falsificador das peças, outras duas pessoas e muitas falsificações.

- Lorenzo Beltracci, você está preso por interceptação de peças roubadas, falsificação e arte e tráfico de armas. – Peter adorava essa parte. – E Diana?
- Sim, chefe.
- Faça uma busca no apartamento de Beltracci. E na sua mais recente aquisição imobiliária também. Meu palpite é encontrar um verdadeiro tesouro.

Peter dispensou toda sua equipe logo após um brinde de comemoração na sala de reuniões da Colarinho Branco. Sara, explodindo de felicidade só de imaginar sua comissão por resgatar todas aquelas obras de arte, levou Henrique para comemorar a dois. Diana correu para casa a fim de encontrar o filho, os demais também correram para suas famílias. Esse era o plano de Peter...depois de conversar com Neal.

- Stone me enviou uma mensagem há pouco. É do seu interesse.
- Fala de uma vez então. Vai, Peter! Diz!
- Amanhã pela manhã a juíza dará a sentença, em regime de urgência devido a iminente catástrofe que se aproxima, caso não encontremos Thomas Carter. E Stone aposta numa sentença favorável. É provável que amanhã mesmo Rachel receba uma nova tornozeleira.
- E você está preocupado porque não a quer de volta.
- Não! Não me entenda mal, Neal. Eu estou sentindo a falta de Rachel conosco...mas...ela está prestes a dar a luz. E Eu temo por trazê-la nesse momento.

O telefone de Neal estava tocando. Ele olhou o visor e desistiu de atender quando viu se tratar de Rachel.

- Eu..eu também me preocupo...mas a gente dá um jeito, mantém ela aqui no escritório.

O telefone tocou uma segunda vez e, sob o olhar atento de Peter, Neal recusou a chamada.

- Mesmo assim! Não me agrada!

Quando a conversa foi interrompida pela terceira vez em sequência, os dois homens trocaram um olhar nervoso. Peter explodiu primeiro.

- Atenda logo. E diga para a Rachel respeitar seu horário de trabalho! – Neal arregalou os olhos. – Eu não sou idiota, Neal. Você não larga esse celular Neal.

Diante disso, Neal, bem sorridente, ligou para Rachel. Era bom não ter de esconder. O telefone tocou apenas uma vez e ela atendeu. Normalmente, falavam aos sussurros por medo de alguma enfermeira ouvir. Dessa vez ela estava aos gritos.

- Neal Caffrey! Porque não atendeu!?!?
- Calma! Eu estava no FBI. Eu estou, na verdade. E Peter está te mandando um abraço.
- Que ótimo! Mas agora corra pra cá porque sua filha está nascendo!
- O que? Como assim? Porque não falou antes?
- Eu tentei! Mas você não atendeu ao telefone! – Ela parou para suportar uma contração. – Neal Caffrey! Você tem 20 minutos para estar aqui, segurando minha mão! Ou eu juro que proíbo sua entrada na sala de parto!
- Não! Espere! – Ele tinha de ver a filha nascer. – Helen!!!! Espere o papai, querida.




Neal Caffrey corria rápido, muito rápido. E foi obrigado a colocar esse talento em uso. Não que Rachel fosse realmente expulsá-lo da sala de parto. Ela não seria capaz. Mas aquela ameaça vazia dizia bem o quanto ela o desejava por perto. E Helen precisava dele para vir ao mundo em segurança. Chegou na recepção exatos 24 minutos depois de Rachel desligar e pulou a catraca gritando ao guarda que era por um bom motivo.

- Minha filha está nascendo! Minha filha! Minha Helen!

Quando chegou na ala obstétrica já avistou Laura trajando uma roupa verde, usada nos blocos cirúrgicos. Por um instante sentiu medo.

- Bem vindo, Srº Caffrey. Já íamos começar sem sua presença. Finalmente, sua filha convenceu Rachel de que desejar nascer. Vou começar a cesárea em alguns minutos. Vá se vestir. Uma enfermeira vai acompanhá-lo para junto de sua esposa. Ao chegar, procure tranquilizá-la. Ela está uma pilha.



Tudo ocorreu muito rapidamente. Minutos depois, Rachel o viu entrar na sala esterilizada e colocar-se ao seu lado. Somente nesse instante ela relaxou. Não era medo por si mesma. Precisava de Neal ali para manter os olhos em Helen quando aqueles remédios a derrubassem num sono profundo.

- Você chegou...que bom.
- Eu não abandonaria vocês, meu amor.
- Então? – Laura chamou-lhes a atenção. – Vamos trazer essa garotinha ao mundo?

Neal assistiu a tudo com a mão acariciando o rosto de Rachel. Logo após o busto dela, haviam colocado uma pequena cortina que impedia a ambos de ver a cirurgia em seu ventre. O anestesista a colocou de lado e deu uma injeção nas costas. Logo a médica estava testando sua sensibilidade. Neal sabia ser aquilo o início de tudo. Mais alguns minutos e Helen estaria em seus braços.

- Promete que vai cuidar dela pra sempre? – Rachel sussurrou.
- Nós vamos.
- Eu não importo mais. Eles sim. Aconteça o que acontecer, George e Helen ficarão bem. Me promete?
- Prometo. Agora fique calma e concentre-se. Você tem uma tarefa importante hoje.
- Sim, tenho...a mais importante de todas. – Rachel sorria e chorava ao mesmo tempo.

Alheia a toda a emoção à sua volta, Drª Laura estava concentrada em fazer a incisão necessária para o parto. Camada por camada da pele, trabalhou com o bisturi até poder pegar a bebê pelas perninhas, dar-lhe algumas palmadinhas para ouvir o choro e, delicadamente, chamar o pai para cortar o cordão.
Esse foi o único momento em que Neal tirou os olhos do rosto de Rachel. Acompanhou a tudo junto com ela, vendo apenas o que ela via. Mas ao ouvir o choro seus olhos procuraram pela dona daquela voz forte e aguda, responsável por melodia tão bela. Deu três curtos passos, com as pernas bambas. Um tanto sem saber o que fazia, aceitou a pequena tesoura colocada em suas mãos por uma enfermeira e cortou o cordão no ponto indicado pela médica. Logo viu sua filha, tão pequenina, ser enrolada num pequeno lençol acinzentado e, ainda em prantos, ser colocada em seus braços.

- Calma...sou eu...o papai. A mamãe também está aqui. Ela quer muito te pegar. – As lágrimas banhavam seu rosto. Como era possível ser tão bela? Ele que teve a oportunidade de manusear as mais pelas obras de arte, agora percebia jamais ter visto tamanha beleza. Nada podia ser belo que seus filhos. – Olha a mamãe, filha.

Rachel quase não a viu. Seus olhos estavam embaçados. Mas a sentiu ser colocada em seu colo. Estava ainda suja de sangue e tinha os olhos não completamente abertos. Helen parou de chorar instantaneamente. Ela reconheceu o cheiro da mãe e aconchegou-se como pode.

- Minha pequenina. Seja bem vinda. Mamãe te ama tanto.


A equipe médica precisava seguir com os procedimentos de mãe e bebê. E alguns poucos minutos depois aproximaram-se para retirar o bebê. Rachel estava cada vez mais sonolenta pela anestesia e a própria reação do corpo ao parto. Apesar de estar lutando contra o parto, Rachel precisava dormir.

- Vamos levá-la para dar banho e fazer os primeiros testes enquanto a senhora passa por mais alguns procedimentos. Precisamos pegá-la.
- Não! Não a quero sem nós! – A perda de Lis deixou medos e ensinamentos. – Neal! Me deixa agora! Vai com Helen. Não tire os olhos dela e a proteja. Quando eu acordar, quero vê-la bem.
- Mas amor...você...- Helen estava bem e Rachel ainda passaria pelos pontos. Ele deseja ficar.
- Eu ficarei bem. Vá com Helen. Me promete que quando eu acordar ela estará conosco.
- Claro que prometo. Fique tranquila. Não deixarei nada de errado ocorrer com Helen.

Com essa garantia, Rachel foi lentamente levada ao mundo dos sonhos. Sonhos doces e com o perfume de uma recém nascida.